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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um velho passa por mal agradecido


 

«Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.»

 

A vida na universidade (a de Coimbra) sempre me pareceu fastidiosa mas “teve de ser”. Ao contrário da descrição jubilosa de ‘Os Maias’, cheia de saraus literários e musicais, adultérios, álcool ou ‘charretes’ subindo e descendo as colinas, as neblinas do Mondego sempre me pareceram coroar uma existência geralmente consagrada a pouco estudo, aos desregramentos noctívagos e ao folclore que, ao longo dos anos, muitos colegas prolongaram em baladas de saudade e alguma melancolia. Como a melancolia é um sentimento nobre, prefiro classificar essas lágrimas como elas me pareceram: pura choraminguice e vontade de repetir épocas de alcoolismo remanescente ou de paixonetas histriónicas. Livrar-me de Coimbra foi, também, livrar-me de uma idade aborrecida e poder viver pelos meus próprios meios. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha de Coimbra (que conheceu durante os anos da República) uma visão oficialmente idílica e muitas vezes, à sobremesa, depois de descrever com uma bem disfarçada minúcia alguns dos episódios fadistas da sua existência universitária, confessava que fora tudo “uma palhaçada”. O seu desprezo por Coimbra foi adquirido depois de ter visitado Londres e, por curiosidade, a verdejante e chuvosa Oxford, onde se sentiu, finalmente, estudante: em vez do lixo das vielas coimbrãs, encontrou a serenidade que aconselhava o estudo; e, em vez das peregrinações boémias e feéricas que percorriam o empedrado de uma cidade cheia de castas, lentes, pudores, bedéis, manias e futuros directores-gerais ou desembargadores, Oxford pareceu-lhe um lar. Para sua – e creio que nossa – infelicidade, foi sempre um conservador de ideias liberais, e um cavalheiro bem vestido, num país que não podia ter uma câmara de Lordes pelo simples motivo de não haver gente com categoria para ascender à posição. O seu desprezo pelo dr. Salazar, tantas vezes exagerado, vinha de ele imaginar aquele pobre homem provinciano, de colete e chinelos, estudando a questão do trigo à luz de candeeiros de petróleo, a uma mesa com camilha e braseira, enquanto no Arco de Almedina decorriam as praxes e as bebedeiras. Livrar-me de Coimbra (onde, séculos antes, a Inquisição condenara um dos nossos antepassados) significou um sincero regresso à vida. Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.

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