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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Uma família irrequieta diante da chegada do Verão

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

 

Já houve três dias de Verão e o Verão ainda não chegou. A frase foi dita no domingo passado por Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, e foi uma chamada ao bom senso geral em tempo de rebeldia contra os elementos. Ela escutava os lamentos pela “vaga de frio” que nos assolava, entre chuviscos caindo ao largo da Ínsua e uma brisa morigerada que obrigava ao uso de agasalhos. A minha sobrinha Maria Luísa tentou dizer que o aquecimento global causa danos irreparáveis à Natureza, mas foi prontamente abafada por gargalhadas – e juntou-se, vencida, aos protestos pelo atraso na chegada do Verão.

A esta hora, os leitores benevolentes já devem ter notado que o Verão, propriamente dito, só tem chegada marcada para a próxima semana, se cumprir as suas obrigações de calendário.

O velho Doutor Homem, meu pai, prezava muito a “meia estação”, atribuindo-lhe méritos civilizacionais muito exagerados e a chegada do Verão não lhe era especialmente querida. Atribuo isso ao seu dandismo, e a uma boa dose de vaidade de que os Homem sempre dependeram; a “meia estação” era a oportunidade de se vestir como um cavalheiro do campo inglês, de ‘tweed’ e boné, exercitando-se em passeios vagarosos para apreciar, como ele dizia, “o massacre do pólen”.

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

O meu avô, administrador de quintas do Douro, sofria amargamente com o Verão. Tendo de viajar ao longo daquele vale decorado de vinhas e rochas ameaçadoras, era uma vítima do calor inclemente que varria o mapa da região. Nessa altura, Barca d’Alva era o epicentro do inferno, abafado, terrível, sem amenidades, mas que ele tinha de visitar para manter o ritual das conversações crepusculares com Guerra Junqueiro, o poeta da Quinta da Batoca, a quem devotava uma admiração e um respeito que o velho Doutor Homem, meu pai, achava inversamente proporcional à admiração e respeito que se devia devotar à sua poesia.

Regressando do Douro, recebido na estação de São Bento juntamente com cabazes de fruta e garrafas de boas colheitas, o meu avô queria proteger-se do Verão em passeios até Leça, onde procurava um pouco de ar temperado para os seus problemas respiratórios.

Cinquenta, sessenta, setenta anos depois, ainda me sinto um herdeiro de Dona Ester, minha mãe, alugando um toldo à época no diminuído areal de Moledo.

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