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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Vivien Leight no areal de Moledo

«Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes.»

 

A minha relação com o cinema é ligeira, antiga (há mais de vinte anos que ignoro o que acontece fora de Moledo) e feita de muita ignorância, mas, naquela época – eu teria cerca de vinte anos –, talvez quisesse ter-me casado com Vivien Leight, não por causa de ‘E Tudo o Vento Levou’, onde foi Scarlett O’Hara, mas por causa de Blanche DuBois, papel que ela representou ao lado de Marlon Brando. E eu, na minha superlativa vaidade, só poderia ter sido Brando ou, então, Richard Burton (totalmente afastada a hipótese de me fazer passar por Clark Gable). Porquê Brando? Por causa de Blanche DuBois em ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’. Porquê Burton? Por causa de ‘Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?’, um filme que trai a minha idade mas que justifica o meu celibato.

Destas revelações, que só o Inverno propicia, a minha sobrinha Maria Luísa fixou apenas Vivien Leight – eu não poderia explicar-lhe quem foi Claire Bloom, uma actriz de beleza tempestuosa e triste, que os leitores certamente já esqueceram. Maria Luísa acha Blanche DuBois um nome fatal do teatro e um exemplo de primeira grandeza para o feminismo, assuntos que ou me ultrapassam ou me deixam em grande desvantagem numa conversa de sociedade. Mais tarde, falhados os principais amores da minha vida, eu fugia de tudo o que pudesse complicar mais a minha vida, dedicada à mediania da vida familiar e ao cumprimento de tarefas que asseguravam a possibilidade de viajar e economizar para a velhice. Quando esta chegou, como sempre acontece, era tarde para voltar atrás.

Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, pensa – por vezes – que me fez falta uma companhia feminina e, provavelmente, uma “família normal”. Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes: sobrinhos enamorados ou ruidosos, irmãos que vivem angustiados com os problemas do economia, sobrinhos-netos que crescem no meio da ignorância e da internet, e pessoas amáveis que às vezes vêm ajudar-me a entender a harmonia das coisas. A Dra. Celina, por exemplo, dá-me notícias da sua filha que estuda em Lisboa. A minha sobrinha Maria Luísa descobriu agora o prazer de cozinhar e, ao crepúsculo de sábado, recolhe-se junto do fogão como uma esquerdista cheia de ternura. Este empréstimo de beleza basta-me. Ao canto da sala, Vivien Leigh lê um romance da moda e, de vez em quando, imagina como teria sido a sua vida sem mim.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

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