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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

07/12/14

Sobre a proliferação de comentadores de economia

 

É o que tem de bom o nosso país; esta gentil ignorância sobre os nossos assuntos faz de nós uns patuscos.

 

Com a idade, há coisas que vamos deixando – ou já deixámos – de discutir, ou porque não têm importância ou porque nos encontrámos finalmente reduzidos à nossa pequena e natural dimensão, e, em consequência, já pouca gente nos liga. Entre essas matérias (muito numerosas) encontram-se o Orçamento de Estado, o buraco do ozono, o desembarque dos “liberais” em 1832, a situação actual do regime bancário português ou, enfim, saber se a D. Jéssica Athayde está – ou não – mais magra. Este último tema foi-me sugerido por Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, e conto um dia pronunciar-me sobre ele.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha por hábito dizer que, em Portugal, tanto a “literatura” como a “indignação” eram coisas que ficavam muito baratas, razão por que se escrevia muito mal na “literatura indígena” – e por que a “indignação” diante do destino ou dos defeitos dos outros nos tinha impedido de procurar fazer coisas bem feitas. No entanto, ainda mais barato do que esses dois flagelos era o fornecimento geral de “opinião” (um produto totalmente gratuito). Tanto assim que a expressão “eu não sei, mas acho que...” é uma das mais frequentes e interessantes do nosso idioma. Só esta ideia (a de “não saber” mas, mesmo assim, emitir uma “opinião”, tão mais enérgica quanto menos fundamentada) permite explicar a extraordinária abundância de comentadores de economia e finanças públicas nas nossas televisões.

Os meus irmãos rapazes são, ambos, economistas (ou “astrólogos”, na gíria familiar – por aqui se vê a fé dos Homem nessa ciência tão sobrevalorizada), seguindo a carreira do nosso avô, administrador de quintas do Douro e antigo colega de José Domingues dos Santos (um esquerdista radical no ocaso da República) no Instituto Superior de Comércio do Porto. Quando lhes peço para confirmarem ou, na maior parte dos casos, para desmentirem esta ou aquela desgraça, ambos encolhem os ombros como se me aconselhassem a não ver telejornais e a dedicar-me a outras matérias, porque de economia sei, digamos, “os rudimentos imutáveis”. Acontece que a generalidade dos comentadores na televisão não são comentadores de economia mas – como me garantem os meus irmãos, a minha sobrinha esquerdista e mesmo o bom Alfredo do restaurante Ancoradouro – de comentadores de outras coisas que também comentam economia e que, desde há quatro anos, não fazem outra coisa, como se estivessem munidos um bacharelato em finanças. É o que tem de bom o nosso país; esta gentil ignorância sobre os nossos assuntos faz de nós uns patuscos.

07/12/14

Dona Elaine e a teoria da literatura

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Dona Elaine acha que os livros velhos constituem contribuições decisivas para doenças conhecidas (a asma, a sinusite, a rinite e a diminuição da vista) e desconhecidas (como a ignorância, por exemplo). Alguns livros das minhas estantes foram conservados na biblioteca de família desde a minha juventude. Na altura sabíamos ler, dividir orações, comentar e sermos tementes aos autores maiores. 

 

Dona Elaine, a governanta deste eremitério, está inconsolável porque terminou uma das suas telenovelas preferidas com um final de que não gostou. O comentário aconteceu uma destas manhãs, à mesa do pequeno-almoço de torradas e café de cevada. Dado ser ainda cedo e a chuva ter regressado aos pinhais de Moledo para os informar da chegada definitiva do Outono, pensei explicar-lhe que isso me aconteceu várias vezes ao terminar um livro – uma personagem que desaparece antes do (meu) tempo, uma acção despropositada, um desfecho sentimental estapafúrdio, uma morte provavelmente injusta. O mundo da literatura é prodigioso em más soluções para histórias fictícias e para histórias reais.

Mas, felizmente, uma brisa de bom senso impediu-me a algaraviada, travando a tempo de deixar a antiga emigrante do Rio de Janeiro a braços com um bibliómano sem nenhuma ligação ao mundo real. As telenovelas portuguesas, de facto, inquietam-me bastante. Dona Elaine não perde uma e conhece os nomes das personagens e a sua genealogia mais longínqua, praticamente da mesma forma que o Tio Alberto conhecia os apelidos das cantoras de ópera do seu tempo. De vez em quando (de mês a mês) “finjo não ver” um episódio – e, mesmo pelo canto do olho, toda a gente me parece deprimida, zangada ou a necessitar de conserto gramatical. Creio que é muito pior do que na vida real, onde podemos dar-nos ao luxo de desviar o olhar.

Dona Elaine acha que os livros velhos constituem contribuições decisivas para doenças conhecidas (a asma, a sinusite, a rinite e a diminuição da vista) e desconhecidas (como a ignorância, por exemplo). Alguns livros das minhas estantes foram conservados na biblioteca de família desde a minha juventude. Na altura sabíamos ler, dividir orações, comentar e sermos tementes aos autores maiores. Talvez as histórias se repetissem de livro para livro (hoje a memória trai-me frequentemente e há personagens que passam de um livro para outro), da mesma forma que hoje as novelas da televisão se repetem com regularidade; entre ricos e pobres, homens e mulheres, felizes e desgraçados, esperançosos ou desiludidos, o género humano não reinventou o amor nem ultrapassou a morte. Dona Elaine, se tivesse lido os clássicos, não seria mais feliz: limitar-se-ia a conhecer outros nomes para a sua vastíssima curiosidade. Por isso limitei-me a confirmar que a telenovela terminou. Houve gente mais feliz; uma senhora má que matou um cavalheiro igualmente mau. Nada que não venha em Shakespeare, murmurei. Dona Elaine julgou que eu estava a pedir mais café.

07/12/14

O efeito do referendo escocês em Ponte de Lima

 

Já quanto à Tia Benedita, por seu lado, ela tinha sido informada pelo clero de Ponte de Lima de que não só a Igreja Anglicana tinha um conflito eterno com Roma, mas que a Escócia era ainda mais anti-papista do que o dr. Afonso Costa.

 

As nossas relações com a Escócia são literárias ou meteorológicas. Menciono “as nossas relações” como se os Homem constituíssem uma espécie de chancelaria e mantivessem laços Estado a Estado – é um resto de vaidade e de mania das grandezas que os leitores benevolentes por certo me perdoarão. Mas como a Escócia não é um Estado e os Homem não são um condado, podemos manter as coisas como estão. Precisamente, um dos sonhos do velho Doutor Homem, meu pai, era o de ter viajado até às ilhas Hébridas, não por causa da música de Mendelssohn, um alemão meridional que ficou encantado com o cenário – mas por causa de Samuel Johnson, o sábio e literato, guardião dos clássicos, que viajou longamente nas suas colinas. Tirando esta intenção nunca cumprida, havia outras referências escocesas na sua vida, a começar por um boné de ‘tweed’ que usava por recreio quando se aproximava o que na altura se designava por “meia estação”; tinha uma etiqueta onde estava a palavra Edimburgo, que ele gostava de mostrar como garantia da sua pequena extravagância escocesa.

Na verdade, nunca planeou alguma viagem às Ilhas Ocidentais; limitava-se a “ter gostado” de lá ter passeado um dia, sem ter, no entanto, dispendido esforço, tempo, pecúlio e imaginação – que provavelmente acabaria desiludida. A imagem que ele tinha das Hébridas era a de uma espécie de parque montanhoso, fustigado pelas intempéries nocturnas, mantido verde pela chuva permanente e relembrado pelos escritores que lhe dedicaram versos ou relatos de viagem, geralmente pouco amáveis. Isto lhe bastava.

Já quanto à Tia Benedita, por seu lado, ela tinha sido informada pelo clero de Ponte de Lima de que não só a Igreja Anglicana tinha um conflito eterno com Roma, mas que a Escócia era ainda mais anti-papista do que o dr. Afonso Costa (este último argumento era decisivo e, no limite, usado sem cerimónia; estrada que o demagogo da República tivesse um pisado, era proibida para a família).

Dos vivos, no entanto, só a minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família (ultimamente muito morigerada, vale a pena dizer), se manifestou sobre o referendo escocês. Foi por ela que soube que a independência da Escócia significaria o estabelecimento de um paraíso na Europa, de onde seriam varridos não só os políticos actuais mas também o capitalismo, a monarquia e, creio, o uísque falsificado. Esta perspectiva não me era desagradável, tirando o exílio de Sua Majestade. Ainda imaginei a Tia Benedita preparando o casarão de Ponte de Lima para receber Isabel II, expulsa pelos escoceses.

07/12/14

O dia em que o velho Doutor Homem repousou

Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

 

Foi por volta de 1970, em pleno Outono, tépido e chuvoso. O velho Doutor Homem, meu pai, apresentou-se à porta de casa a meio da manhã decidido a “arrumar as coisas” – soubemos que tinha sido esta a expressão usada para justificar a momentânea ausência do escritório onde, durante anos, exerceu advocacia e passou praticamente uma vida inteira. Isto merece uma explicação.

A partir de 1966 interrompera o hábito quotidiano de almoçar em casa, tendo decidido que, doravante, passaria a frequentar um restaurante pelo qual se afeiçoou e onde não o incomodavam com sugestões extraordinárias. Nessa altura não havia chefs; uma refeição compunha-se de sopa, prato principal, sobremesa, vinho do Porto e café (que, relembro os leitores benevolentes, não era “expresso”, mas de cafeteira). Por atenção e gentileza do dono do restaurante, o velho Doutor Homem, meu pai, pôde durante anos beber colheitas clássicas da Real Companhia e, uma vez por outra, aceitar xerez com limão como aperitivo (nos dias de Inverno aconchegava-se com um ponche quente à despedida). De vez em quando mandava cumprimentos à cozinha quando a sua vitela no forno ou o arroz de pato lhe traziam à memória a Tia Henriqueta, a melhor de todas as cozinheiras da família, a cuja casa – em Vila Praia de Âncora – acorríamos uma vez por mês para saborear aqueles cardápios que foram sempre a antecâmara da felicidade. Uma vez por outra levava companhia até ao restaurante – mas muito raramente; a sua hora de almoço era uma espécie de recolhimento para um cavalheiro com cinco filhos ruidosos e que gostava de ler O Primeiro de Janeiro com desprendimento enquanto não chegava (do Clube Inglês) o seu pacote semanal do Telegraph.

Excepto naquela manhã. Soubemos, mais tarde (Dona Ester, minha mãe, acompanhou a cena à distância), que se fechou no escritório, vagueou pelo quarto, recolheu papéis – e que, à saída, levava uma caixa de cartão que mandou destruir. Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

Saiu de casa com ar tranquilo; apesar de ainda ser meio-dia, o táxi deixou-o à porta do restaurante onde almoçava diariamente. Quarenta anos depois recordo esse momento com alguma melancolia. O velho Doutor Homem, meu pai, estava disponível para a eternidade.

07/12/14

O crepúsculo em Moledo durante o Verão

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade.

 

Já contei aos leitores benevolentes a forma como Dona Ester, minha mãe, encarava o Verão: uma espécie de sanatório. Em primeiro lugar, isto só era possível no litoral do Alto Minho, a única província que a família entendia ter condições para proporcionar férias verdadeiras às várias gerações dos Homem de todas as idades; em segundo lugar, o tratamento incluía uma certa dose de abnegação e, em simultâneo, de desprendimento. Dona Ester, minha mãe, acreditava que pessoas bronzeadas não só resistiam melhor aos contratempos como, também, transportavam um certo ideal de beleza que contrariava a palidez e a tendência para a neurastenia. Assim, segundo a sua bula médica, o sol e o iodo de Vila Praia de Âncora, Afife ou Moledo eram, convenientemente administrados, uma espécie de vacina contra as gripes, o reumatismo, as doenças respiratórias, os problemas de pele – tanto como uma prevenção dos estados depressivos e da tendência para a poesia lúgubre (que ela achava um dos grandes defeitos portugueses). Esta medicina foi aplicada pelo tempo fora, sendo Moledo (com a sua conjugação de pinhal, neblinas matinais, brisas marítimas, banhos de água fria e sol filtrado pela imagem da Ínsua e de Santa Tecla) o hospital e a fonte de todos os milagres. Não era um tempo melhor ou pior do que o de hoje – era a época de Dona Ester. Quanto ao velho Doutor Homem, meu pai, ele concordava com a terapêutica desde que, à mesa do jantar, nos apresentássemos em ordem e com gramática. Hoje, passados setenta anos, recordo esses Verões de outrora como uma derradeira ventania da memória.

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade; creio que se interroga sobre se a vida teria, ou não, sido melhor de outra maneira, e se os seus filhos teriam atravessado de outra forma, a funesta idade da adolescência.

Ontem, ao fim da tarde, arrastou-me para um passeio até à esplanada do P’ra Lá Caminha (o café diante da praia), onde é sempre difícil conseguir uma mesa para suportar a temperatura do crepúsculo. Aquela felicidade surpreende-me sempre. “Qual felicidade?”, perguntou ela, desconfiada. “Nenhuma. Só isto.” Dona Ester teria compreendido a imagem. Um Verão em Moledo nunca se explica; é um crepúsculo que nunca se espera.

 

07/12/14

A depressão de Dona Elaine e a cozinha de Moledo

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas 

 

Desde há meses que Dona Elaine não perde um programa de cozinha na televisão. Se não o vê em directo, escolhe as horas mansas da tarde – enquanto os nossos visitantes se estendem no areal da praia, reconfortados pelo calor que, finalmente, chegou a Moledo – para verificar o que se cozinha na Austrália, nos Estados Unidos e, por vezes, em programas de viagem que atravessam a Tailândia, a Mongólia ou regiões ainda mais exóticas, como o Alto Douro ou o Alentejo. Ontem mesmo deparei com um espectáculo preocupante: a governanta deste eremitério sentada à mesa da cozinha, tendo à sua frente um caderninho comprado na mercearia, tomando notas acerca de um filete de garoupa braseado com raspa de gengibre e um caril de legumes, colorido como um Caravaggio alegre.

Dona Elaine é uma cozinheira de mérito, educada nos fogões da sua família (emigrantes no Brasil), aconchegados pela sabedoria minhota – de Cerveira. Isso significa que oscila bastante entre uma certa simplicidade e um desejo barroco que nunca é atingido: pratos suculentos e letais andam de braço dado com peixes frescos e saladas da horta. Por alturas do Verão, Dona Elaine rejuvenesce e recolhe-se à despensa, animada pela chegada dos meus sobrinhos e outros acompanhantes; limitada pela minha dieta, esta pequena multidão estival, jovem e esfomeada, é uma oportunidade para relembrar a sua arte. Surgem, então, tabuleiros de arroz de pato, travessas de escabeche, doces que fazem tremer os tempos modernos, massas folhadas que desafiam a austeridade, peixes que passam pela tortura do forno e uma grande variedade de recordações dos velhos livros de gastronomia do Alto Minho – para os quais, não raras vezes, é convocado o Dr. Barreto Nunes, que vem de Braga com mais um opúsculo raríssimo que apreciamos à hora da sesta.

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. Foi necessária uma “terapia de choque”, garantindo que detestávamos as técnicas de “empratamento” contemporâneas (onde a comida é amontoada como uma torre de Babel) e que apreciávamos como ninguém o seu frango no forno, recheado, luminoso e suculento. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas, os pratos que o Tio Alberto preparou para D. Ramon Otero Pedrayo, o insigne galego. Toda a gente compreendeu que são necessários sacrifícios para manter impoluta a mesa de Moledo.

 

07/12/14

Uma família irrequieta diante da chegada do Verão

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

 

Já houve três dias de Verão e o Verão ainda não chegou. A frase foi dita no domingo passado por Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, e foi uma chamada ao bom senso geral em tempo de rebeldia contra os elementos. Ela escutava os lamentos pela “vaga de frio” que nos assolava, entre chuviscos caindo ao largo da Ínsua e uma brisa morigerada que obrigava ao uso de agasalhos. A minha sobrinha Maria Luísa tentou dizer que o aquecimento global causa danos irreparáveis à Natureza, mas foi prontamente abafada por gargalhadas – e juntou-se, vencida, aos protestos pelo atraso na chegada do Verão.

A esta hora, os leitores benevolentes já devem ter notado que o Verão, propriamente dito, só tem chegada marcada para a próxima semana, se cumprir as suas obrigações de calendário.

O velho Doutor Homem, meu pai, prezava muito a “meia estação”, atribuindo-lhe méritos civilizacionais muito exagerados e a chegada do Verão não lhe era especialmente querida. Atribuo isso ao seu dandismo, e a uma boa dose de vaidade de que os Homem sempre dependeram; a “meia estação” era a oportunidade de se vestir como um cavalheiro do campo inglês, de ‘tweed’ e boné, exercitando-se em passeios vagarosos para apreciar, como ele dizia, “o massacre do pólen”.

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

O meu avô, administrador de quintas do Douro, sofria amargamente com o Verão. Tendo de viajar ao longo daquele vale decorado de vinhas e rochas ameaçadoras, era uma vítima do calor inclemente que varria o mapa da região. Nessa altura, Barca d’Alva era o epicentro do inferno, abafado, terrível, sem amenidades, mas que ele tinha de visitar para manter o ritual das conversações crepusculares com Guerra Junqueiro, o poeta da Quinta da Batoca, a quem devotava uma admiração e um respeito que o velho Doutor Homem, meu pai, achava inversamente proporcional à admiração e respeito que se devia devotar à sua poesia.

Regressando do Douro, recebido na estação de São Bento juntamente com cabazes de fruta e garrafas de boas colheitas, o meu avô queria proteger-se do Verão em passeios até Leça, onde procurava um pouco de ar temperado para os seus problemas respiratórios.

Cinquenta, sessenta, setenta anos depois, ainda me sinto um herdeiro de Dona Ester, minha mãe, alugando um toldo à época no diminuído areal de Moledo.

07/12/14

Preparar o Verão e a brevidade da vida

A floração dos hibiscos, como das giestas das serras e das mimosas à beira dos caminhos é um dos retratos do meu Alto Minho particular, enquanto Moledo se prepara para o verão

 

Lamento informar, mas Maio é um dos grandes meses neste eremitério de Moledo: ele alberga as grandes decisões sobre o Verão que se aproxima de mansinho, colorindo o pinhal das traseiras, empurrando com suavidade as brisas dos nossos crepúsculos, limpando a poeira que ameaça os vasos dos hibiscos – durante anos, a família entendeu que eles davam sentido a uma parte da minha vida, frágeis e rosados, tranquilos com a ideia de que perecerão em breve, conformados com a brevidade da vida e a sua imperfeição.

A floração dos hibiscos, como das giestas das serras e das mimosas à beira dos caminhos é um dos retratos do meu Alto Minho particular, enquanto Moledo se prepara para o verão: Dona Elaine ronda a despensa, tomando medidas, anotando — de memória e mentalmente — a proporção entre os víveres a armazenar e os invasores previsíveis.

A segunda prova da proximidade do Verão é dada pela minha sobrinha Maria Luísa; no esplendor da idade, afastada a hipótese de rumar para destinos longínquos ou vagamente cosmopolitas, ela prefere agora seguir a sombra das suas raízes, para retomar o verso de Eliot, limitando-se a anunciar que de Julho a Setembro o seu quarto está reservado, e que provavelmente aqueles dois adolescentes que passam por seus filhos a acompanharão em parte do acampamento.

Falo de acampamento porque era essa a forma que a casa de Moledo tomava nesses Verões de há não muitos anos, quando todos os meus sobrinhos eram adolescentes e se dispunham não apenas a inaugurar a época balnear mas, também, a acompanhar o seu curso até que o último grão de areia pousasse sobre a superfície abandonada dos caminhos junto do mar. A imagem parece romântica, mas é apenas uma força de expressão — eles assentavam arraiais, entontecidos, e permaneciam assim durante todo o Verão (Julho e Agosto, uma semana de Setembro), arrastando visitantes de que sempre ignorei o nome e violando todos os horários praticados dentro de casa.

Dona Elaine — com a ironia do costume — apreciava a situação. Ela entendia que se tratava de um teste à minha capacidade de resistência e ao habitual torpor que o Verão transportava para a sala da biblioteca e para a varanda onde me dedicava à prática dos cuidados botânicos. Mas a antiga emigrante do Rio ficava feliz com essa invasão juvenil; todos eles tinham bom estômago, resistência à água fria da Ínsua e um descaramento que, julgava ela, incomodava o mais reaccionário dos minhotos de Moledo. Enganava-se; eu sentia-me como um Zé do Telhado na companhia de salteadores de Barcelos.

07/12/14

Mais de 40 anos fora de moda

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade.  

 

O velho Doutor Homem, meu pai, lamentava-se periodicamente de ser conservador num país que alimentava uma genuína paixão pelo progresso em todas as frentes. O caso explica-se facilmente através da literatura: os leitores já não se recordam, mas no Mau Tempo no Canal, o romance do Prof. Nemésio passado no apogeu da República, há um barão da Urzelina muito temente a Deus, que sempre se considerou fiel ao partido de Hintze Ribeiro (o da monarquia, relembro) – porém, como era igualmente fiel ao progresso, tornou-se cabo eleitoral do Partido Republicano, o mesmo de Afonso Costa.

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade. Isto causar-lhe-ia muitos problemas na época, quando se consideravam a democracia e, por extensão, o socialismo, como uma espécie de pórtico para o paraíso terreno. A Igreja, à excepção da do Alto Minho e talvez da de Miranda do Douro, creio eu, também prometia o socialismo, e o mesmo faziam todos os partidos políticos, incluindo – estranhamente – o Partido Socialista. A minha sobrinha Maria Luísa (a eleitora esquerdista da família e nascida pouco tempo antes da revolução) não acompanhou os debates ideológicos dessas duas décadas preciosas mas, à distância, também sofreu da nostalgia da geração anterior, por pura solidariedade.

A família, que desde o século XIX se habituara a conviver na adversidade com os vários regimes mandantes, preparou-se convenientemente para a democracia. Em primeiro lugar, em vez de flutuar ao sabor das conspirações (foram bastantes), limitou-se a viver como se não pertencesse ao futuro, não obrigando ninguém a aceitar as suas obsessões e teimosias: nestes últimos cento e cinquenta anos conservou a sua biblioteca, reconheceu erros e não esperou a salvação da sua alma. Mantendo-se à distância, cumpriu obrigações e, à excepção de uma ou outra ocasião, foi razoavelmente cínica, não acreditando no apocalipse nem na chegada do reino dos céus. Esta espécie de misantropia não produziu vítimas nem nos isolou do mundo; pelo contrário, apesar da existência da Tia Benedita, a matriarca miguelista de Ponte de Lima, manteve-nos razoavelmente disponíveis para o divórcio, a televisão a cores ou o convívio com políticos que raramente soletram frases com sujeito, predicado e complemento directo. Éramos fora de moda, enfim. E continuamos, em liberdade. Não há maior elogio ao 25 de Abril.

05/04/14

Lições de economia num mundo de idiotas

«O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas.»

 

 

O meu irmão mais novo é economista. Ele herdou o escritório do nosso avô em 1965 – exactamente o mesmo que, quarenta anos antes, em Janeiro de 1925, foi tomado de assalto por milícias republicanas que ali foram procurar promissórias e bombas reaccionárias escondidas debaixo dos tapetes. Na época, o avô – administrador de quintas inglesas do Douro – recorreu a uma amizade académica, o radical e incendiário presidente do Ministério, José Domingues dos Santos, matosinhense de quem fora colega no burguês mas solene Instituto Superior de Comércio do Porto, que mandou desmobilizar a púrria.

De 1965 até hoje a ciência da contabilidade transformou-se bastante e o meu irmão protesta, com veemência e estatísticas, sempre que (por cinismo mas boa fé) lhe recordo os erros das previsões económicas, o que aproxima a sua classe tanto dos meteorologistas de antanho como dos astrólogos de hoje.

A nossa fé no Dr. Anthímio de Azevedo em nada se compara com a desconfiança nos economistas; o meteorologista explicava pela televisão, de ponteiro na mão, como poderia evoluir o anticiclone dos Açores e como as chuvas do dia poderiam terminar num céu obtuso ou num firmamento limpo – o seu crédito era ilimitado porque os astros eram imprevisíveis. Já com os economistas da televisão a situação é bem diferente. Rodeados de estatísticas, os economistas manejam-nas da mesma forma que Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, esconde a sua receita de pudim de peixe.

Porém, onde o Dr. Anthímio de Azevedo mostrava a imprevisibilidade dos Elementos, os economistas da televisão consideram a infalibilidade dos números, com a diferença de que as previsões dos astrólogos nos ficam consideravelmente mais em conta. O meu irmão não concorda; ele acha que a crise se deve a factores que os economistas estudam com empenho e seriedade, e que vamos demorar vinte anos a recuperar da hecatombe – um tempo que, quando chegar ao Alto Minho, já não me encontrará vivo.

O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas. Com toda a probabilidade, teria razão. E, confrontado com a previsão de vinte anos para abandonar a crise, ele teria considerado – antes de voltar à leitura do Telegraph – que isso era bem possível, desde que eliminassem os idiotas. 

05/04/14

Um pequeno elogio ao bigode fora de moda

 

«No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.»

 

As minhas irmãs não cessam de se actualizar com as coisas do mundo. Como são as mais novas de um grupo de cinco irmãos, têm a seu favor a palavra “modernidade” e quase nada daquela parte do mundo que fica fora de Moledo lhes é desconhecido. Periodicamente mencionam novas dietas e novas religiões que fazem de nós, simples mortais, provincianos de um mundo que não tem fim. A determinada altura conseguiram conciliar uma forma de meditação oriental, de que agora me não recordo, com um regime de baixas calorias que certamente as tornava mais felizes. A propósito disso, a minha sobrinha Maria Luísa acha que eu tenho um preconceito contra as “coisas novas”, estatuto que eu aceito obedientemente, como convém a uma espécie cordata de miguelista do Alto Minho.

Apesar de tudo, houve um tempo em que eu era menos velho. As minhas irmãs, por exemplo, dão como adquirido que eu nasci já depois da adolescência. Elas referem-se a um gosto desajustado, mesmo para a época, por andar bem barbeado e vestido com sobriedade. Conservo o meu bigode desde esse tempo da juventude, nem à Clark Gable, nem à Santos Dumont, se bem que, ao dobrar os trinta, Dona Ester, minha mãe, o achasse demasiado parecido com o de um retrato do ‘Kaiser’ Guilherme II – o que levou a uma consequente aparadela, com o corte que ainda hoje apresenta (ela gostava muito de ver os filmes de Omar Shariff).

O meu sobrinho Pedro deixou agora crescer o bigode, o que não desagradou a Isabelle, a sua namorada holandesa. O argumento familiar é simples: voltou a “estar na moda”. Mas a jovem frísia, criada entre holandeses escanhoados e antepassados de vastíssimas barbas aloiradas, creio que considera o bigode um enfeite mediterrânico e um pormenor aristocrata. Depois de ter sido banido durante algumas décadas, o bigode está prestes – segundo entendo – a regressar aos nossos retratos.

O velho doutor Homem, meu pai, dizia que o passado regressa amiúde para se rir, ou das coisas modernas, ou da vontade de criar modas. Maria Luísa, sem o saber (ela é uma mulher inteligente criada nos anos oitenta), encarou a hipótese e sugeriu que, por embirração, eu talvez devesse considerar a ideia de cortar o bigode. Esclareci que, para mim, não se trata de um adereço, mas de um hábito, como o café de cevada ao pequeno-almoço. No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.

05/04/14

A pátria familiar e as saudades de Dona Elaine

 

«O velho Doutor Homem, meu pai, sonhava com os alfaiates de Londres; Dona Elaine, suspira quando recorda as canções de Dick Farney sob o crepúsculo da Avenida Rio Branco, no Rio.»

 

De vez em quando, Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, declara que tem saudades. Mais do que pela menção às saudades, propriamente ditas, é o timbre que assevera a autenticidade da proclamação, entre o pequeno-almoço e aquele momento em que o ar da manhã entra pela porta da cozinha, juntamente com o ruído da chuva no pinhal junto de casa e o ondular permanente do mar do Minho, cavo e familiar. Emigrante no Brasil, para onde foi com os pais, que se estabeleceram como comerciantes no Rio, Dona Elaine regressou a Cerveira depois de ter enviuvado. Trouxe com ela o essencial: dinheiro para reconstruir a modesta casa dos seus maiores (que, assim, deixou de ser modesta sem abandonar a sua aldeia natal), as arrecadas e algum vício do mundo – aquilo que, à sua medida, se pode considerar o pórtico de algum cosmopolitismo. O último quartel do século XX já não era, no entanto, o tempo dos “brasileiros” de Camilo e do Porto, Famalicão, Braga ou Barcelos. O tio Alfredo, que regressou dos sertões só depois da morte do dr. Salazar (e que se manteve assinante da Gazeta do Pernambuco), amealhara o suficiente para se instalar na sua quinta de Afife – e sofria das mesmas saudades, como se a pátria lhe tolhesse os movimentos ou lhe provocasse o tédio dos insones.

Os portugueses amam terrivelmente o seu país, mas amiúde gostariam que ele fosse outro qualquer. Afastados da sua horta, choram as harpas dependuradas sob os salgueiros, como os exilados de Sião; regressados, declaram que têm saudades. Esta contradição não é aparente – é verdadeira, salvo no caso do velho Doutor Homem, meu pai, que passou os melhores anos da sua vida imaginando ser um lorde inglês que aos sábados discreteava com o Dr. Samuel Johnson acerca de genealogia, lápides funerárias e questões de geografia das Hébridas. Ai dele, limitava-se a alimentar uma família numerosa e a receber o Daily Telegraph em pacotes remetidos do Clube Britânico.

Hoje, a emigração é tratada como um flagelo – como se os portugueses sofressem perdidamente por cada minuto passado fora da linha de fronteira. A verdade é que fomos sempre emigrantes, ou por motivos políticos ou para ludibriar a pobreza. Tirando a Tia Benedita, que considerava “estrangeiro” quase tudo o que acontecera depois da Concessão de Evoramonte, ou que a afastava do casarão de granito de Ponte de Lima, o “estrangeiro” foi sempre a nossa miragem. O velho Doutor Homem, meu pai, sonhava com os alfaiates de Londres; Dona Elaine, suspira quando recorda as canções de Dick Farney sob o crepúsculo da Avenida Rio Branco, no Rio.

05/04/14

A que horas começa o dia em Moledo?

 

«Quando era jovem não tinha insónias. Atribuo o facto à minha vida desinteressante, distribuída pelo escritório, pelo cumprimento dos deveres, pelas amizades discretas e pelas horas dedicadas a leituras enfadonhas.»

 

Os velhos levantam-se mais cedo por dois motivos: dormem menos e, porque são sensatos, recolhem mais cedo. São hábitos de anos que moldaram o carácter e as funções vitais de gerações habituadas a ritmos que, de ordinário, se destinavam a gente que trabalhava cedo, que tinha obrigações domésticas e que acreditava ser bom para a saúde cedo erguer e cedo adormecer.

Até ao aparecimento da televisão, da rádio por vinte e quatro horas, da luz eléctrica, da cafeína distribuída a rodos e dos medicamentos para dormir, os dias de antanho terminavam com aquela placidez que se atribui ao tempo dominado pelo silêncio – o meu e o dos meus avós, e por aí fora, até sermos devolvidos à criação do mundo.

Contra todas as expectativas, acho que esse tempo era enfadonho. Não triste, nem inútil, ou desagradável – apenas enfadonho. As grandes novidades deste tempo comovem-me um tanto, embora não as ache, a esta distância, muito úteis. Servem, certamente, para que a nossa vida fique menos enfadonha; mas peço ao leitor que acompanhe o meu raciocínio: uma vida com sinais enfadonhos não é necessariamente desinteressante ou triste. A vida não tem de assemelhar-se às festas da Senhora da Agonia vistas dos pinhais dos arredores, nem havia pirotecnia que chegasse. Há, portanto, um preço a pagar pelas coisas.

Hoje, dobrando aquela idade que não me transporta a mais memórias mas apenas às primeiras franjas do esquecimento, continuo a levantar-me cedo e a aproveitar a bonomia das madrugadas, apesar de sofrer periodicamente de insónias. Levantar-me cedo oferece-me um bom momento do dia. Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, serve o pequeno-almoço a partir das sete e meia (eu apareço um pouco depois); há vinte anos que se repete, dia-a-dia, o cardápio do pequeno-almoço (torradas e café de cevada), tal como a sobremesa do almoço de Ano Novo.

Quando era jovem não tinha insónias. Atribuo o facto à minha vida desinteressante, distribuída pelo escritório, pelo cumprimento dos deveres, pelas amizades discretas e pelas horas dedicadas a leituras enfadonhas. As minhas irmãs, que sempre me olharam com a curiosidade que se deveria devotar a uma espécie rara, acrescentam a falta de preocupações familiares e a ausência de uma mulher que castigasse a leviandade do meu carácter. Em seu entender, uma esposa deveria proporcionar-me um nível adequado de preocupações, de modo a economizar no sono e a manter-me acordado quando o corpo me ordenasse que dormisse. Foi o que me salvou.

05/04/14

Um velho passa por mal agradecido


 

«Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.»

 

A vida na universidade (a de Coimbra) sempre me pareceu fastidiosa mas “teve de ser”. Ao contrário da descrição jubilosa de ‘Os Maias’, cheia de saraus literários e musicais, adultérios, álcool ou ‘charretes’ subindo e descendo as colinas, as neblinas do Mondego sempre me pareceram coroar uma existência geralmente consagrada a pouco estudo, aos desregramentos noctívagos e ao folclore que, ao longo dos anos, muitos colegas prolongaram em baladas de saudade e alguma melancolia. Como a melancolia é um sentimento nobre, prefiro classificar essas lágrimas como elas me pareceram: pura choraminguice e vontade de repetir épocas de alcoolismo remanescente ou de paixonetas histriónicas. Livrar-me de Coimbra foi, também, livrar-me de uma idade aborrecida e poder viver pelos meus próprios meios. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha de Coimbra (que conheceu durante os anos da República) uma visão oficialmente idílica e muitas vezes, à sobremesa, depois de descrever com uma bem disfarçada minúcia alguns dos episódios fadistas da sua existência universitária, confessava que fora tudo “uma palhaçada”. O seu desprezo por Coimbra foi adquirido depois de ter visitado Londres e, por curiosidade, a verdejante e chuvosa Oxford, onde se sentiu, finalmente, estudante: em vez do lixo das vielas coimbrãs, encontrou a serenidade que aconselhava o estudo; e, em vez das peregrinações boémias e feéricas que percorriam o empedrado de uma cidade cheia de castas, lentes, pudores, bedéis, manias e futuros directores-gerais ou desembargadores, Oxford pareceu-lhe um lar. Para sua – e creio que nossa – infelicidade, foi sempre um conservador de ideias liberais, e um cavalheiro bem vestido, num país que não podia ter uma câmara de Lordes pelo simples motivo de não haver gente com categoria para ascender à posição. O seu desprezo pelo dr. Salazar, tantas vezes exagerado, vinha de ele imaginar aquele pobre homem provinciano, de colete e chinelos, estudando a questão do trigo à luz de candeeiros de petróleo, a uma mesa com camilha e braseira, enquanto no Arco de Almedina decorriam as praxes e as bebedeiras. Livrar-me de Coimbra (onde, séculos antes, a Inquisição condenara um dos nossos antepassados) significou um sincero regresso à vida. Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.

26/01/14

Vivien Leight no areal de Moledo

«Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes.»

 

A minha relação com o cinema é ligeira, antiga (há mais de vinte anos que ignoro o que acontece fora de Moledo) e feita de muita ignorância, mas, naquela época – eu teria cerca de vinte anos –, talvez quisesse ter-me casado com Vivien Leight, não por causa de ‘E Tudo o Vento Levou’, onde foi Scarlett O’Hara, mas por causa de Blanche DuBois, papel que ela representou ao lado de Marlon Brando. E eu, na minha superlativa vaidade, só poderia ter sido Brando ou, então, Richard Burton (totalmente afastada a hipótese de me fazer passar por Clark Gable). Porquê Brando? Por causa de Blanche DuBois em ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’. Porquê Burton? Por causa de ‘Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?’, um filme que trai a minha idade mas que justifica o meu celibato.

Destas revelações, que só o Inverno propicia, a minha sobrinha Maria Luísa fixou apenas Vivien Leight – eu não poderia explicar-lhe quem foi Claire Bloom, uma actriz de beleza tempestuosa e triste, que os leitores certamente já esqueceram. Maria Luísa acha Blanche DuBois um nome fatal do teatro e um exemplo de primeira grandeza para o feminismo, assuntos que ou me ultrapassam ou me deixam em grande desvantagem numa conversa de sociedade. Mais tarde, falhados os principais amores da minha vida, eu fugia de tudo o que pudesse complicar mais a minha vida, dedicada à mediania da vida familiar e ao cumprimento de tarefas que asseguravam a possibilidade de viajar e economizar para a velhice. Quando esta chegou, como sempre acontece, era tarde para voltar atrás.

Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, pensa – por vezes – que me fez falta uma companhia feminina e, provavelmente, uma “família normal”. Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes: sobrinhos enamorados ou ruidosos, irmãos que vivem angustiados com os problemas do economia, sobrinhos-netos que crescem no meio da ignorância e da internet, e pessoas amáveis que às vezes vêm ajudar-me a entender a harmonia das coisas. A Dra. Celina, por exemplo, dá-me notícias da sua filha que estuda em Lisboa. A minha sobrinha Maria Luísa descobriu agora o prazer de cozinhar e, ao crepúsculo de sábado, recolhe-se junto do fogão como uma esquerdista cheia de ternura. Este empréstimo de beleza basta-me. Ao canto da sala, Vivien Leigh lê um romance da moda e, de vez em quando, imagina como teria sido a sua vida sem mim.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

22/01/14

Passagens do tempo a meio do Inverno

«O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado.»

 

Entretenho-me com memórias da família. O senso comum manda que o Inverno, com as suas depressões e dias de chuva seja um período dedicado ao assunto: noites para revisitar a memória, curtas tardes de sábado para recolocar fotografias nos álbuns, crepúsculos melancólicos para meditar sobre a torrente dos anos que passaram. Na minha idade, dobrado aquele ponto de onde nunca mais se divisa o ponto de partida, todos os momentos são dedicados à memória, mesmo quando ela diminui gravemente.

A generosidade, talvez por isso, chega com o passagem do tempo; à distância apreciam-se melhor os momentos que não podem regressar. E somos mais condescendentes, mais generosos, menos dados ao rigor ou à fúria. É a única coisa valiosa que se aprende com a idade: a envelhecer. Como se se envelhecesse para se aprender a envelhecer. O Tio Henrique visita-nos durante o Inverno; vestido com o seu velho casaco de lã, toca oboé ao canto da varanda, aprecia a chuva que cai sobre as faias de Arcos de Valdevez. A Tia Benedita dá os seus passos firmes pelo corredor do velho casarão de granito em Ponte de Lima e, a meio, pára a fim de limpar com o xaile uma pequena mancha de humidade no retrato de Dom Miguel, sem o mínimo sinal de tristeza.

O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado. O Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, acende a lareira e senta-se no seu cadeirão voltado para uma estante onde se extingue a memória do seu século – atravessou continentes, é o aventureiro da família, o homem que roubou o coração a Svetlana Davydovna e conheceu o céu sobre Astrakhan, aberto sobre o Cáspio. Poucas vezes falou dela em família: era o seu segredo velado. Conhecendo a tendência dos Homem para a maledicência, poupou Svetlana, a sua princesa russa, ao lado de quem queria ser sepultado em Genebra. Ficou no Minho; ficámos todos no Minho, aguardando o nosso juízo final, igualmente sem tristeza, conformados com a geografia e os nossos vícios.

As gerações da família transmitem as recordações umas às outras, como num álbum de retratos que se herda de um museu. Dona Ester, minha mãe, acena aos seus bisnetos no areal de Caminha, onde o rio se perde na ondulação até não existir mais; a minha sobrinha Maria Luísa, a quem contei estes devaneios, acha que é tema de romance. Não. É apenas o tempo que passa e que nos deixa mais humanos, mais resistentes à gripe, mais sorridentes.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

15/01/14

O mar de Biarritz e as recordações de um velho

«Dona Ester acreditava que os rapazes bronzeados e as raparigas desempoeiradas eram abençoados pelo iodo e transformavam-se, com o tempo, em gente saudável.»

 

O velho Doutor Homem, meu pai, e Dona Ester, minha mãe, enamoraram-se em Biarritz num mês de Julho sem história, à beira de uma praia que quase ninguém frequentava porque estava mau tempo e chovia com abundância; o pormenor acabou por aproximá-los. As famílias de ambos tinham o costume de, de dois em dois anos, passar aí uma temporada (duas semanas, uma eternidade). Eram gente moderadamente rica sem a vertigem da fama ou da vulgaridade, e creio que davam passeios pela costa, falando o francês dos romances da época e da má imprensa parisiense. Trinta anos mais tarde, depois dos horrores da II Guerra, a família visitou o lugar – éramos muitos, a viagem era terrível através de uma Espanha sitiada por estradas ruins e vigiada por carabineiros de bigode, e Biarritz já não era o paraíso daquele primeiro quartel do século, procurada por pessoas que sabiam ler e se vestiam para jantar nas varandas dos hotéis. Mas era necessário recordar o episódio. De vez em quando, pelo menos até os meus irmãos e irmãs (éramos cinco no total) terem casado e criado os seus próprios itinerários familiares, fazíamos a peregrinação; eu era o mais velho, ainda não sabia que seria poupado à felicidade do matrimónio e da puericultura, e tornara-me proprietário da caneta Parker com que o velho Doutor Homem, meu pai, assinara o seu assento de casamento.

Ao contrário desse Julho de Biarritz, não me recordo de temporadas inclementes durante os verões da minha adolescência e juventude, passados quase sempre no Minho, ao qual sempre pertenci como um pinheiro melancólico à beira das dunas de Caminha e Moledo. Os invernos eram cruéis e as ventanias e tempestades da Galiza concentravam-se por toda a costa até às rochas de Leça e às ondulações que entravam Douro dentro, transformando a Afurada num cenário de devastação. Conhecíamos o mar e sabíamos como os arredores do Neiva, de Montedor ou de Âncora podiam ser perigosos.

No Verão, Dona Ester lançava-nos nos areais de Afife para que nos bronzeássemos e a pele secasse com a água salgada a que atribuía virtudes curativas e prolongadas. Dona Ester acreditava que os rapazes bronzeados e as raparigas desempoeiradas eram abençoados pelo iodo e transformavam-se, com o tempo, em gente saudável.

Na semana passada recordei esses momentos, como um velho atacado pelo demónio sentimental. A minha sobrinha Maria Luísa mencionou os temporais, com honra de televisão e alertas vermelhos. Lembrei que não se pode querer viver debruçado sobre o mar sem considerar que é necessário protegermo-nos dele.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

15/01/14

As histórias são sempre as mesmas

«Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”»

 

 

O velho Doutor Homem, meu pai, considerava que A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco, era o livro que melhor servia os interesses dos curiosos em história portuguesa do século XIX. Na verdade, nessas páginas habitava uma galeria de celerados, loucos, gente sensata e virtuosa vivendo paredes-meias com frades apóstatas e traidores das milícias minhotas, mulheres intempestivas, homens covardes, pregadores violentos, pecadores arrependidos, gente picaresca, enfim, de tudo um pouco. Um dos personagens, o pedreiro Zeferino das Lamelas, julgou morrer de amores por Marta, que tinha o seu coração prometido a José Dias e o dote garantido pelo que viria a ser, afinal, o seu futuro marido, um tio brasileiro muito forreta e sem carácter. Era deste Zeferino que queria falar, não por ser um modelo de virtudes mas por ser um fala-barato que acabaria morto atrás de um muro em ruínas, a coberto da noite, às mãos de um bando de assassinos a soldo, que assim facilitavam a vida ao pai de Marta, que poderia finalmente negociar com o brasileiro que em breve chegaria disposto a comprar as melhores quintas da região. Confuso? Naturalmente (e poupo os meus leitores e leitoras ao conhecimento de outras agonias crepusculares). Para isso servem os romances, tirando os de Mrs. Trollope, em que tudo acaba a contento.

Resumidamente, julgava o velho Doutor Homem, meu pai, nos meus momentos de desmoralização, aqui estava uma boa ideia sobre como falar da história de Portugal.

Hoje em dia, ao serão, evito cada vez mais ver televisão: tudo medido e considerado, não se acrescenta muito ao conhecimento que temos do género humano ou do destino da pátria. Dona Elaine não perde as novelas e, na cozinha ou na sala, saltita de uma para outra, mudando de canal, creio que misturando as personagens e as histórias de todas elas. Manifestei-lhe essa preocupação. Ela tranquilizou-me:  “O senhor doutor não se incomode, porque as histórias são sempre as mesmas. Em perdendo um capítulo numa delas, logo se apanha na outra.”

Num país tagarela, feito à medida do Zeferino das Lamelas – o personagem de Camilo –, isto ocorre com muita frequência. Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

16/12/13

Um passeio breve em volta da fortaleza

«Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide.»

 

Contra todas as evidências, o mundo continua a interessar-me. Os meus sobrinhos, mais do que os meus irmãos, entendem o eremitério de Moledo, onde me instalei nos anos oitenta, como uma espécie de observatório inclinado sobre o mar, mas de onde suspeito que o resto do universo continua a mover-se – e de uma forma mais interessante do que Galileu Galilei imaginava.

Na semana passada, aproveitando o que ela chama “o período idiota” para o seu negócio bracarense, a minha sobrinha Maria Luísa levou-me de carro por um passeio pelo Norte do país. Há dois anos que Moledo era a minha fortaleza e a minha fronteira; a leitura dos jornais (cada vez menos, se tirarmos o The Daily Telegraph por assinatura na papelaria), uma passagem de olhos pela televisão e o comentário dominical durante o almoço de família bastavam-me para me considerar um cidadão informado. Tal como em várias gerações de antepassados, as opiniões têm prioridade sobre os factos – estes, limitam-se a repetir uma sequência de acontecimentos cujo interesse reside em confirmarem as previsões da família desde há duzentos anos, ou seja, que o mundo não estará muito melhor, mas que vale a pena persistir em guardar alguns valores que nos protegem da erosão. A frase é complicada, mas resume o essencial.

Serras atravessadas por auto-estradas, cidades rodeadas de edifícios incolores ou devastadas por eles, a velha Natureza enevoada do Norte (que sempre me comove), praças ocupadas por jovens que se vêem na televisão: o meu país não me desilude nem contraria. É como eu supus que ele era. Mantém a sua face, apesar do regime do dr. Salazar e da devastação do presente.

Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide, onde anualmente visito as sombras que há mais de cem anos foram as de Camilo, com o seu arvoredo triste, as suas madeiras velhas, o seu crepúsculo mágico. O país mudou aceleradamente mas o refúgio de Seide continua a inquietar-me; ali estava o relógio de Pinheiro Alves, o marido de Ana Plácido, que Camilo usou sem pudor, antecipando o desfecho trágico de uma existência consagrada a sobreviver no meio de ruínas.

A casa de Moledo recebeu-me de volta com o seu ar apaziguador. É a minha fortaleza e a minha fronteira. Maria Luísa, antes de partir para Braga, acenou-me do carro. A poeira do fim da tarde confundiu-se com o nevoeiro, tal como os anos da minha vida.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

08/12/13

Um conservador perdido no meio do dicionário



«Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”.»



A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, desconfia da existência de um “gene conservador” entre os Homem. Só isso explica, pensa ela, uma certa “tonalidade progressista” em muitas das crónicas com que tenho afligido a bondade dos meus leitores. Fui verificar, preocupado. E adivinho que o problema reside, muito mais, na forma como os portugueses agudizaram, ao longo dos anos, o seu relacionamento com o dicionário da sua pobre língua.

Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”; esta profissão de fé é comum a toda a espécie de gente e serve para declarar que os “conservadores” são inimigos da espécie humana – sobreviventes de uma era anterior ao Titanic e à descoberta da penicilina –, por oposição aos “progressistas”, gente aberta ao mundo e disponível para massacrar tradições e hábitos dos nossos antepassados, com o argumento de que a civilização não cessa de nos maravilhar.

Estas evidências são lendárias, tal como a existência de unicórnios nos bosques de Ponte da Barca ou nas encostas mais arborizadas do Gerês. Em primeiro lugar, a espécie humana é, não raras vezes, uma desilusão a que a nossa generosidade empresta algum carácter; mas não deixa de ser uma desilusão. Em segundo lugar, a civilização não é uma escadaria para o santuário de S. Bento da Porta Aberta, degrau sobre degrau: pelo contrário, há recuos admiráveis e funestos, vergonhosos, indignos – do nazismo aos massacres actuais, o nosso tempo conhece horrores de registo. Finalmente, não vejo vantagem em bom número de “coisas modernas”, que nos transformaram numa espécie sitiada pelo perigo de acordar no dia seguinte.

Mesmo concordando com estes princípios (que não fazem uma filosofia, reconheço), não há português que não se satisfaça por, algum dia, alguma vez, ter apanhado o comboio da modernidade e do “avanço civilizacional”, onde segue a boa velocidade, atravessando florestas esventradas por urbanizações de betão ou falando uma língua sem gramática, nem beleza, nem ordem.

Os conservadores gostam da ordem porque o género humano precisa de alguma tranquilidade – não porque apreciem o controle dos polícias. Foram os tempos modernos que impuseram uma vigilância perigosa nas nossas vidas privadas e públicas. O velho Doutor Homem, meu pai, recusava-se a entrar nesta discussão com o argumento de que, depois do Padre António Vieira, se falava mal o português e as pessoas se não entendiam. Ele tinha uma certa razão, e nunca leu uma única das minhas crónicas.


Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 8-12-2013

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