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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

16/12/13

Um passeio breve em volta da fortaleza

«Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide.»

 

Contra todas as evidências, o mundo continua a interessar-me. Os meus sobrinhos, mais do que os meus irmãos, entendem o eremitério de Moledo, onde me instalei nos anos oitenta, como uma espécie de observatório inclinado sobre o mar, mas de onde suspeito que o resto do universo continua a mover-se – e de uma forma mais interessante do que Galileu Galilei imaginava.

Na semana passada, aproveitando o que ela chama “o período idiota” para o seu negócio bracarense, a minha sobrinha Maria Luísa levou-me de carro por um passeio pelo Norte do país. Há dois anos que Moledo era a minha fortaleza e a minha fronteira; a leitura dos jornais (cada vez menos, se tirarmos o The Daily Telegraph por assinatura na papelaria), uma passagem de olhos pela televisão e o comentário dominical durante o almoço de família bastavam-me para me considerar um cidadão informado. Tal como em várias gerações de antepassados, as opiniões têm prioridade sobre os factos – estes, limitam-se a repetir uma sequência de acontecimentos cujo interesse reside em confirmarem as previsões da família desde há duzentos anos, ou seja, que o mundo não estará muito melhor, mas que vale a pena persistir em guardar alguns valores que nos protegem da erosão. A frase é complicada, mas resume o essencial.

Serras atravessadas por auto-estradas, cidades rodeadas de edifícios incolores ou devastadas por eles, a velha Natureza enevoada do Norte (que sempre me comove), praças ocupadas por jovens que se vêem na televisão: o meu país não me desilude nem contraria. É como eu supus que ele era. Mantém a sua face, apesar do regime do dr. Salazar e da devastação do presente.

Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide, onde anualmente visito as sombras que há mais de cem anos foram as de Camilo, com o seu arvoredo triste, as suas madeiras velhas, o seu crepúsculo mágico. O país mudou aceleradamente mas o refúgio de Seide continua a inquietar-me; ali estava o relógio de Pinheiro Alves, o marido de Ana Plácido, que Camilo usou sem pudor, antecipando o desfecho trágico de uma existência consagrada a sobreviver no meio de ruínas.

A casa de Moledo recebeu-me de volta com o seu ar apaziguador. É a minha fortaleza e a minha fronteira. Maria Luísa, antes de partir para Braga, acenou-me do carro. A poeira do fim da tarde confundiu-se com o nevoeiro, tal como os anos da minha vida.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

08/12/13

Um conservador perdido no meio do dicionário



«Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”.»



A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, desconfia da existência de um “gene conservador” entre os Homem. Só isso explica, pensa ela, uma certa “tonalidade progressista” em muitas das crónicas com que tenho afligido a bondade dos meus leitores. Fui verificar, preocupado. E adivinho que o problema reside, muito mais, na forma como os portugueses agudizaram, ao longo dos anos, o seu relacionamento com o dicionário da sua pobre língua.

Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”; esta profissão de fé é comum a toda a espécie de gente e serve para declarar que os “conservadores” são inimigos da espécie humana – sobreviventes de uma era anterior ao Titanic e à descoberta da penicilina –, por oposição aos “progressistas”, gente aberta ao mundo e disponível para massacrar tradições e hábitos dos nossos antepassados, com o argumento de que a civilização não cessa de nos maravilhar.

Estas evidências são lendárias, tal como a existência de unicórnios nos bosques de Ponte da Barca ou nas encostas mais arborizadas do Gerês. Em primeiro lugar, a espécie humana é, não raras vezes, uma desilusão a que a nossa generosidade empresta algum carácter; mas não deixa de ser uma desilusão. Em segundo lugar, a civilização não é uma escadaria para o santuário de S. Bento da Porta Aberta, degrau sobre degrau: pelo contrário, há recuos admiráveis e funestos, vergonhosos, indignos – do nazismo aos massacres actuais, o nosso tempo conhece horrores de registo. Finalmente, não vejo vantagem em bom número de “coisas modernas”, que nos transformaram numa espécie sitiada pelo perigo de acordar no dia seguinte.

Mesmo concordando com estes princípios (que não fazem uma filosofia, reconheço), não há português que não se satisfaça por, algum dia, alguma vez, ter apanhado o comboio da modernidade e do “avanço civilizacional”, onde segue a boa velocidade, atravessando florestas esventradas por urbanizações de betão ou falando uma língua sem gramática, nem beleza, nem ordem.

Os conservadores gostam da ordem porque o género humano precisa de alguma tranquilidade – não porque apreciem o controle dos polícias. Foram os tempos modernos que impuseram uma vigilância perigosa nas nossas vidas privadas e públicas. O velho Doutor Homem, meu pai, recusava-se a entrar nesta discussão com o argumento de que, depois do Padre António Vieira, se falava mal o português e as pessoas se não entendiam. Ele tinha uma certa razão, e nunca leu uma única das minhas crónicas.


Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 8-12-2013

04/12/13

Do niilismo à preguiça na província do Minho

 

«A família era realmente conservadora, com a sua pouco subtil tendência para a preguiça e para uma misantropia inócua que significava, no fundo, que era necessário encolher os ombros e seguir em frente.»

 

Para a Tia Benedita, todos os homens eram iguais, tirando o dr. Afonso Costa – com a sua barbicha – que era muito pior. Quando a senhora referia que “todos eram iguais” não estava a citar o emblema da revolução francesa, evidentemente, mas o seu próprio anátema contra o comportamento dos homens da família, que iam a Vigo comprar charutos, à Corunha comer polvo e a Orense e ao Lugo creio que comer presunto cozido e beber viños de ribeiro. Quando referia estes objectivos, a Tia Benedita sabia bem que o seu auditório compreendia o que ela queria dizer: que, em podendo, iam divertir-se e arranjar amantes.

O velho Doutor Homem, meu pai, teve durante algum tempo o costume de ir à Corunha visitar o dr. Cunha Leal, que ali estava exilado – mas com o argumento, que lhe fora explicado pelo seu irmão Alberto, de ir a Ribadeo comer ostras. Por aqui se vê a ortodoxia da família. A verdade é que, até o dr. Cunha Leal ter sido apanhado na companhia de simpatizantes carbonários e republicanos do Partido Democrático, os Homem manifestavam alguma compreensão por aquele cavalheiro que queria ordem na política e disciplina nas finanças públicas; a partir daí, deixou de mencionar-se o seu nome, creio que até hoje, com excepção do relato do funeral de Paiva Couceiro, em 1944, ao qual ambos os lados compareceram: o Tio Alberto, representante de um dos clãs que financiou o seu pobre exército galego; o dr. Cunha Leal, porque lhe agradavam todos os que tinham sido contra qualquer coisa desde que produzissem algum ruído.

Esta ideia de ser “contra qualquer coisa” poderia ter feito escola na família. Havia todas as condições para se tratar de uma tribo de perigosos niilistas conservadores, com a civilizada excepção de não defender o uso de bombas – mas seria uma contradição de termos. A família era realmente conservadora, com a sua pouco subtil tendência para a preguiça e para uma misantropia inócua que significava, no fundo, que era necessário encolher os ombros e seguir em frente. Depois de um século a viver entre despojos de derrotas políticas, o sentido da História – se é que alguma vez ele existiu – não nos interessava. Limitar-nos “a cultivar o jardim”, dizia o velho Doutor Homem, meu pai, citando Voltaire às escondidas da Tia Benedita.

Ela julgava que a frase tinha a ver com algum interesse súbito do seu sobrinho dilecto pela arte da jardinagem ou pela botânica; a sua ignorância no campo das letras ímpias foi, também, a sua salvação. À sua maneira, ela também era “contra qualquer coisa”.

 

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 1-12-2013

04/12/13

A vida privada e a sua virtude


«A Tia Benedita, por exemplo, evitava saber o que não lhe agradava. Ela imaginava Ponte de Lima, onde viveu e morreu, sitiada pela imoralidade, pelo bolchevismo e pela república.»

 

Não me lembro de, à mesa de casa, se falar de vida privada. Não existia. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha – pela hora da sobremesa, antes do café – o pequeno gosto da maledicência, não da maldade. Havia um maravilhoso resto de humor nesses apontamentos, com vítimas desenhadas com pormenor, moldadas sem piedade, arrastadas com a colher do pudim.

Tudo tinha a ver, dizia o velho Doutor Homem, meu pai, com “a exibição da alma”, um adereço que devia guardar-se para o interior das casas, onde estivesse a salvo da vulgaridade. Discutir a vida íntima era matéria para não mais que duas pessoas, num recato inviolável, talvez com aquele toque de soberba e até de misantropia fingida.

O princípio foi levado tão longe que, quando a minha sobrinha Maria Luísa anunciou que ia divorciar-se pela terceira vez, havia gente que não sabia do segundo casamento. Era, naturalmente, um exagero indesculpável numa família que assistiu a escândalos, protagonizou alguns (casamentos roubados, desgostos pueris, singularidades do Alto Minho) e tratou da vida como se os hibiscos fossem eternos – sabendo que não eram.

A Tia Benedita, por exemplo, evitava saber o que não lhe agradava. Ela imaginava Ponte de Lima, onde viveu e morreu, sitiada pela imoralidade, pelo bolchevismo e pela república. Na verdade, nunca conheceu nenhuma das coisas. Limitou-se a verificar que havia coisas que não lhe agradavam e que o tempo passava sobre o retrato do senhor Dom Miguel ao fundo do corredor de granitos e reposteiros, uma presença tão banal e consentida que é hoje, periodicamente, entregue aos cuidados de Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família – que o leva a Braga para limpeza.

Percebo que Maria Luísa, com o tempo, passou a apreciar esta discrição (antigamente, ela supunha que se tratava de hipocrisia): nunca foi perguntada sobre os seus amores nem os meus sobrinhos sobre os passeios pelo pinhal, onde suponho que procedem a cerimónias rituais para fumar haxixe.

O que não existe, não me incomoda – apenas me surpreenda que exista. Mas pouco. Desde a ida do homem à Lua e da invenção do biquíni brasileiro que a tranquilidade conservadora de Moledo persiste como uma bênção acolhedora. Limita-se a fazer de conta que as coisas estão bem feitas.

Dona Elaine, a governanta e vigilante deste eremitério, diz que o mal de hoje são as telenovelas. Ela acredita que, a sul de Viana, atravessando o Lima, o mundo anda num grande desconcerto. Acha-o normal. A arte está em escondê-lo com virtude. 

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 24-11-2013

04/12/13

Uma ida a Copacabana nos anos cinquenta



«Até ao fim da sua vida, a Tia Benedita (cuja galeria incluía um retrato do brigadeiro Ferreira Sampaio em vésperas da contra-revolução de 1823) nunca deixou de desconfiar do Brasil, tal como o dr. Salazar, que achava os trópicos a antecâmara de todos os pecados.»

 

Recordo com alguma nitidez – aquela que a idade permite – a minha partida para o Brasil nesses inesquecíveis anos cinquenta (a minha sobrinha Maria Luísa considera a palavra “inesquecíveis” sinónima de “o despertar de Copacabana”, e não anda muito longe da verdade).

Para alojamento, o meu pai contribuiu com alguma moderação e mandou instalar-me no então circunspecto Hotel Glória, já um símbolo conservador do Brasil da época. Aqueles três meses, como já contei aos leitores bondosos, mudaram a minha vida, devolvendo-me à Pátria curado de um mal de amor e preparado para enfrentar os enigmas da idade adulta. Voltei ao Brasil mais vezes, mas os “inesquecíveis anos cinquenta” nunca poderia repetir-se pela minha vida fora. Seja como for, o tempo passou sobre o tempo, a minha vida passou sobre esses anos e, como seria lógico, o mundo mudou bastante.

Na altura, tomando conhecimento da viagem, a Tia Benedita manifestou um pouco da sua habilidade para lidar com a História; desconhecendo os areais de Copacabana e as suas tentações limítrofes (é uma maneira de dizer), a matriarca de Ponte de Lima preferiu lembrar, sobre todas as coisas, que D. Pedro tinha “reinado” sobre o Brasil antes de chegar ao trono de Lisboa, o que fazia da antiga colónia uma espécie de foco de contágio. O velho Doutor Homem, meu pai, achou o argumento despropositado e, levando-me a Lisboa para que eu atravessasse o Atlântico, recomendou-me que me divertisse.

Até ao fim da sua vida, a Tia Benedita (cuja galeria incluía um retrato do brigadeiro Ferreira Sampaio em vésperas da contra-revolução de 1823) nunca deixou de desconfiar do Brasil, tal como o dr. Salazar, que achava os trópicos a antecâmara de todos os pecados e, portanto, da liberalidade em política. Para a Tia Benedita, o pecado não contava muito, porque ela conhecia a natureza humana e não se impressionava facilmente com adultérios nem quebras de moral. O que a incomodava era “o contágio”: hoje um degrau, amanhã outro; hoje um deslize, amanhã uma avalanche; da mini-saia ao bolchevismo, o caminho era curto e a passagem demasiado rápida.

Quando regressei do Brasil, ao fim de três meses e meio no Rio de Janeiro, as coisas não tinham mudado nas colinas que rodeavam Ponte de Lima e aquele casarão rodeado de muros cobertos de trepadeiras e rosas de Sta. Teresinha. Vi a Tia Benedita uma semana depois do meu regresso, quando fui visitá-la para oferecer-lhe umas recordações da Guanabara. Tossiu com discrição. A falar verdade, ela achava que era necessária uma quarentena.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 17-11-2013

04/12/13

A vida dá voltas, ou o caso do fado

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma predilecção por Anna Moffo, cujas interpretações da Traviatta e do Barbeiro de Sevilha o comoviam bastante. Os discos da soprano acompanharam-no durante muito tempo e, naqueles verões destemperados de Ponte de Lima, onde se recolhia por uma a duas semanas, serviam para acomodar as amenidades locais ao seu temperamento irrequieto. De braço dado com uma ária tardia, o crepúsculo descia mais perfeito sobre o casarão de Ponte de Lima e os seus muros de granito cobertos de trepadeiras e rosas de Santa Teresinha.

A minha sobrinha Maria Luísa estranhou, durante muito tempo, a natureza desse gosto pela ópera, que ela chamava aristocrático – atribuindo-o, alternadamente, ou à bela vida do seu tio-bisavô, ou a uma “educação elitista”, como sugere o seu manual de única eleitora esquerdista da família (tomando como seguro que o antigo partido do Dr. Louçã se apresente periodicamente a votos). Nenhuma das hipóteses é verdadeira: o velho Doutor Homem, meu pai, apreciava ópera porque na sua juventude frequentara os teatros do Porto e porque fizera um esforço para aprimorar, melhorar e aprofundar os seus gostos. E então, sim, era um gosto de aristocrata e de autodidacta.

Outra era a sua relação com o fado, por exemplo, que as esquerdas consideravam um vergonhoso vício do país atrasado que éramos durante o longo consulado do dr. Salazar. Acontece que o velho Doutor Homem, meu pai, apenas gostava de quatro fados, em geral, e desconhecia orgulhosamente tudo o resto, desprezando-o com uma certa ironia aristocrata. “E que quatro fados eram esses?”, quis saber Maria Luísa. Simples: “Havemos de ir a Viana”, “Povo Que Lavas no Rio” e “O Rapaz da Camisola Verde”, todos com poemas do Dr. Pedro Homem de Mello (e cantados por Amália Rodrigues) – e todos os fados cantados por D. Maria Teresa de Noronha, sem excepção, se bem que, além do “Fado das Horas”, ele não conhecesse mais nenhum.

A vida dá voltas: o pobre fado, essa canção lacrimosa, machista e cheia de saudosismo (emblema nacional, portanto), deixou de ser “um vergonhoso vício” do salazarismo, e é hoje um orgulho das esquerdas, que o choram melancolicamente, diz-se que com muita proficiência, ou em seu nome ou em nome do povo e das classes trabalhadoras. Maria Luísa, tentando esclarecer-me, apresentou-me seis ou sete fadistas da “nova geração” de que esqueci os nomes. Em vão: tal como o velho Doutor Homem, um bom melómano, só aprecio três ou quadro fados. Tudo o resto é, digamos, fado.

04/12/13

Um Verão tardio para iluminar as dunas

Como previa a Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, agora o Outono veio para ficar. Disse-o com alguma tristeza ao entardecer do sábado passado, como se se despedisse, não do Verão pleno e balnear, mas de uma espécie de recaída de um Verão tardio que viesse dar-nos uma segunda oportunidade para apreciar a luz sobre as dunas de Moledo. Lembro-me de que isso acontecia, geralmente, a meio das tardes de Outubro – Dona Ester, minha mãe, vigiava as bicicletas dos seus filhos naquele então longo corredor da Foz. Ainda não havia neblina. Ainda não havia chuva. Ainda não havia folhas de árvores no chão da Praça de Liège. Praticamente, ainda não havia Outono: apenas a graciosidade daquela despedida que Dona Ester, mais do que ninguém, sentia como uma nostalgia antecipada. Ela acreditava que o Verão e as temporadas de praia eram uma inesgotável fonte de saúde de beleza (coisa que, nesse tempo de pudores públicos e privados, fez dela uma mulher ousada e destemida): queria-nos bronzeados (somos cinco irmãos ao todo, eu o mais velho) e a respirar o perfume da beira do mar.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma atitude diferente: era um dandy que apreciava o seu alfaiate, os seus chapéus e a chegada da ocasião mais certa para vestir o primeiro tweed do ano. O fim do Verão não o incomodava; de facto, o seu Verão terminava na primeira semana de Setembro, quando dava por findas as suas excursões ao velho casarão de Ponte de Lima, onde a Tia Benedita vigiava, à distância e com rigor, os espalhafatos da família. Nessa altura, o Tio Alberto já partira para as suas viagens para lá do Bósforo e da civilização, abandonando o jardim e a despensa de São Pedro de Arcos, onde vivia. Há quem atribua ao Outono uma grande percentagem de razões para começarmos a cismar, como se nos desfolhássemos com os plátanos e as videiras das colinas. Pessoalmente, limito-me a agasalhar-me, atitude que me tem protegido bastante. Esta indiferença há-de parecer relativamente arrogante, se pensarmos na minha idade e na teimosia que a acompanha.

Na semana passada, a minha sobrinha perguntou-me se eu penso na morte. “Não costumo cismar. Uma vez ou outra”, menti depois, porque depois dos oitenta pensamos nela todos os dias. O velho doutor Homem, meu pai, aconselhava chá de cidreira para todos os males, inclusive para a tendência de cismar. Por detrás daquela aparência de circunspecto cavalheiro do velho Porto escondia-se um sátiro que ironizava até sobre a existência de vida para lá do Outono.

04/12/13

Os livros que servem para conservar o mundo

De vez em quando, a meio da semana e aproveitando a doçura daquele silêncio outonal que abençoa os pinhais em redor da casa, Dona Elaine, a guardiã e governanta do eremitério de Moledo, fica de pé observando as estantes que cobrem todas as paredes daquilo que chamamos, na família, “a biblioteca”. São uns milhares de livros com proveniência muito diversa e que servem, fundamentalmente, para ler.

A utilidade dos livros, entre os Homem, nunca se desviou muito dessa estrita finalidade. Não se tome a afirmação por arrogância, digamos, intelectual. Há, claro, uma certa vaidade de bibliómano e um certo prazer na posse de um exemplar raro, uma primeira edição, uma curiosidade; mas a vaidade dos Homem tomou sempre outra direcção. O velho Doutor Homem, meu pai, por exemplo, guardava-se para a meia estação a fim de vestir os seus fatos de ‘tweed’ de Donegal (o único que ele achava digno de um cavalheiro colonial, considerando que não ligava à distinção entre o Eire e o Ulster) e dar uso aos bonés irlandeses que o protegiam, durante os seus passeios à beira-mar, de um frio inexistente. Era essa a prova da sua vaidade. O Tio Alberto, tirando o facto de ser considerado o bibliómano da família, preferia ser considerado pelos seus dotes culinários e por ser reconhecido pelos porteiros do velho Hotel du Lac em Genebra, onde repousava das suas viagens em redor do Cáspio antes de regressar à solidão melancólica de São Pedro de Arcos. E a Tia Benedita, tirando a literatura pia e dois ou três romances de que ignorava os títulos, considerava a vaidade um pecado capital de primeira grandeza. Sobrei eu. Durante anos, décadas, não havia opúsculo de história regional do Minho que não cativasse a minha atenção. Mas não por vaidade absoluta e maldosa. Apenas por ingenuidade e um resto de entusiasmo adolescente (coisa que sempre foi duvidosa, uma vez que a família considera que nasci já adulto e que não passei pela adolescência).

De modo que Dona Elaine estaciona diante das prateleiras e, baixinho, pergunta: “O senhor doutor não sabia o que fazer sem estes livros, pois não?” Não. Não saberia o que fazer. A minha sobrinha Maria Luísa, que acha que os livros são um contributo essencial para “mudar o mundo”, desde o mais modesto romance cheio de erros de gramática, até ao ensaio mais obtuso de um professor de Heidelberga, nunca compreendeu que os livros servem, sobretudo, para “conservar o mundo”. Se quiséssemos mudar o mundo, andávamos lá fora, atrevidos e inconsoláveis. São estas coisas que definem um reaccionário em épocas de intempérie.

04/12/13

Um poeta de Monção e a invasão espanhola

No encerramento das contas do mês de Agosto, a minha sobrinha Maria Luísa deu largas ao que, às escondidas, chamou os seus “verdadeiros sentimentos anti-espanhóis”. A ideia de que Castela poderia tomar as Selvagens, ao largo da Madeira, convocou o seu espírito anti-imperialista. Era um fim de tarde de domingo em Moledo, depois de um dia de sol preguiçoso e poeirento, e em breve Maria Luísa partiria para Braga – onde, como expliquei ao leitor, a minha sobrinha trata de ajudar os ricos a decorar as suas casas sem atropelar o sentido das proporções. O Dr. Barreto Nunes interrompera as suas férias em Âncora para ir a Tui comprar o guia do campeonato espanhol e, de caminho, trouxe tapas de Baiona para um lanche cheio de revelações sobre opúsculos minhotos e versos quase galegos de João Verde, um melancólico de Monção que, além de versejar, apreciava a Galiza de antanho como ela vem em dois livros de Gonzalo Torrente Ballester.

O Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, guardara na sua biblioteca um exemplar de Ares da Raia, que transitou nos anos oitenta para as estantes de Moledo, como uma curiosidade regional. João Verde é uma raridade e merece o título. O Dr. Barreto Nunes é um dos seus leitores generosos – e a minha vaidade brilhou ao mostrar-lhe uma primeira edição de 1902. O meu avô paterno, administrador de quintas do Douro, visita regular de Guerra Junqueiro nas colinas estivais de Barca d’Alva, conheceu João Verde à distância. O autor de ‘O Melro’ (o velho Doutor Homem, meu pai, considerava-o um dos mais aborrecidos poemas da nossa língua), que viveu em Viana, foi o responsável por essa familiaridade que o velho contabilista e gestor cultivou educadamente, com o argumento de que se deviam respeitar os homens de letras.

A ideia de um poeta quase luso-galego, declamando em Monção sobre a beleza da raia, mesmo ouvida à distância, foi o motivo da explosão patriótica de Maria Luísa, que temia a ocupação castelhana das Selvagens. A imagem era excessiva, porque as ilhas madeirenses não têm o recorte peninsular de Gibraltar – mas bastava para imaginar o forte da Ínsua, na praia de Moledo, sitiado ou invadido por carabineiros de bigode e tricórnio.

“Os espanhóis são assim. É mais conversa”, tentou explicar dona Elaine, a pretexto da sua experiência de uma década a negociar com contrabandistas de La Guardia. Mas à noite, na varanda voltada para o pinhal, a governanta do eremitério de Moledo olhou para a ondulação, em busca de lanchas invasoras.

04/12/13

Um Verão com iodo e ciúmes familiares

Ao contrário do que supõe a generalidade dos “equiparados a sociólogos” que trabalha nos jornais, não é unânime a ideia de que o Verão seja um território de absoluta felicidade. Preparam-se grandes catástrofes: “o regresso às aulas” antecipará uma temporada em que psicólogos e adivinhos serão entrevistados pelas televisões para nos esclarecerem sobre os traumas que as crianças sofrem todos os anos em Setembro; a chegada do Outono será acompanhada de cantos trágicos e celestiais de economistas (como os meus dois irmãos, cada um em seu ramo) que hão-de celebrar a angústia das contas públicas; para concluir uma procissão de condenados, chegará o Natal e a necessidade de demonstrar o nosso amor ao próximo.

Sei destas coisas por ouvir dizer. Nos areais de Moledo, a meio da tarde, quando começa a levantar-se uma nortada carregada dos iodos atlânticos, há conversas instrutivas sob os toldos de Verão: a minha sobrinha Maria Luísa, que acha “as crianças” (como ela se refere aos seus filhos adolescentes) relativamente insuportáveis, pede a antecipação do ano escolar para Agosto, por considerar que as hormonas devem ser educadas com disciplina e não abandonadas à sua sorte; os economistas, em calção de banho, mencionam operações complicadas da sua ciência e temem a chegada da troika; e Dona Elaine, inesperadamente, a meio de uma tarde de calor apenas temperada pela sombra dos pinhais, sugeriu que este ano substituíssemos o peru pelo cabrito na ceia de Natal, “porque a pequena holandesa queria prová-lo”.

“A pequena holandesa” (natural da Frísia e do Mar do Norte – só isso explica ela achar o mar de Moledo uma bolsa de requintes tropicais) chama-se Isabelle, é a namorada do meu sobrinho Pedro e ainda não tinha antes, e com três meses de antecedência, interferido no cardápio da cozinha de Dona Elaine, a governanta vitalícia. Tirando estas inquietações, saiba o leitor que o Estio decorre no Minho com a moderação habitual. Maria Luísa declarou-se satisfeita com a época balnear e tentou explicar aos filhos que “o iodo” é uma categoria filosófica idolatrada em Moledo, comparável à alma ou às provas da existência de Deus, e não uma matéria para a medicina ou a química. Isabelle, muito positivista, sorriu à ideia e esclareceu que o iodo é muito recomendável “para a saúde”.

Maria Luísa abriu muito os olhos e pediu-lhe para não se meter no assunto. Ela não perdoa que eu tenha emprestado o velho Rover para o meu sobrinho Pedro e a “pequena holandesa” irem a Viana às festas da Senhora da Agonia.

04/12/13

Uma ideologia: as coisas são como são

A “pequena holandesa”, como portas adentro D. Elaine se refere a Isabelle, a namorada do meu sobrinho Pedro, chegou na semana passada para a sua temporada de Agosto. Como é uma visita regular (vem quatro a cinco vezes por ano) e já tenta exprimir-se afavelmente na nossa língua, o seu lugar à mesa está garantido para as duas semanas que se demorará em Moledo. Há trinta anos isto não era possível, pelo menos na família que se honra de ter tido a Tia Benedita como matriarca e farol da sua genealogia: Isabelle teria de pernoitar em Caminha ou em Vila Praia de Âncora, pelo menos até se realizar o casamento com Pedro. A minha sobrinha Maia Luísa, que desconfia dos países do norte da Europa, sempre achou Isabelle muito atrevida; depois de murmurar algumas observações sobre o consumo de haxixe em Amesterdão, a votante esquerdista da família compreendeu que estava a batalhar em terreno minado: não só ninguém se preocupava com as drogas holandesas como a simpatia natural (e a sua beleza rara, vinda das baixas temperaturas da Frísia) de Isabelle se coadunava perfeitamente com a desorganização ideológica de uma família que desistira há muito de chorar a partida do Senhor Dom Miguel – e aceitava que “as coisas são como são”.

O axioma é estranho, mas o universo mudou bastante nas últimas décadas. Esse tempo passou. Hoje, Maria Luísa e Isabelle regressam da praia como amigas de sempre, e entre a jovem bióloga holandesa e a decoradora bracarense nasceu uma cumplicidade que admiro ao longe, porque representa uma vitória da minha parte. Para mim é um argumento fatal: insinuo que Maria Luísa está “mais conservadora” por contágio com a representante do luteranismo neerlandês (e logo frísio), um benefício que a idade arrasta consigo sem prevenir.

Maria Luísa cede aqui e ali, sem reconhecer a evidência – mas aceitando que “as coisas são como são” e que os adolescentes estão cada vez mais absurdos (“os adolescentes” são os seus dois filhos) por culpa da educação liberal dos tempos modernos. Mas o Verão de Agosto não é um território para combates ideológicos: uma modorra vespertina recompensa as neblinas matinais e a nortada quase permanente que pica o mar junto da Ínsua, onde ele é mais azul e parece mais profundo. Maria Luísa encolhe os ombros. O seu optimismo é feito de notícias sobre como o mundo está desregulado e irreconhecível, por culpa do capitalismo, do aquecimento do planeta ou da maldade dos poderosos. Entretanto, lê romances. Há dois dias começou com ‘Orgulho e Preconceito’ e temo que os resultados sejam devastadores.

04/12/13

Os fins-de-semana de uma família desaparecida

A minha sobrinha Maria Luísa considera que os seus filhos, a quem ternamente designa por “as crianças”, dormem demasiado, sobretudo durante os fins de semana. Ora, “as crianças” têm acima de 18 anos e concebem “o fim de semana” como um acontecimento que decorre fora do mundo e vagamente destinado a esgotar energias que, em geral, são desconhecidas. Quando quis saber a que horas se deitam “as crianças”, Maria Luísa murmurou que “às dez ou onze” – e antes que eu elogiasse a sisudez de dois adolescentes que se deitam às horas a que o seu tio-avô dobra as derradeiras páginas do seu livro de companhia, ela limitou-se a esclarecer: “Da manhã.” E o que fazem entretanto? “Desconheço”, respondeu ela enquanto arrumava a loiça do pequeno-almoço, por volta das nove, a tempo de iniciar a caminhada dos sábados.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha fama de ser madrugador. Ele atribuía isso a um hábito nem por isso saudável, o de ter um horário para cumprir no velho escritório da Baixa portuense, e de fazer a sua entrada discreta às nove e meia da manhã, depois de uma passagem pelo Café Guarany, onde – à falta do ‘Daily Telegraph’, que só chegava aos sábados, num pacote expedido – lia o essencial de ‘O Primeiro de Janeiro’ e tomava conhecimento da previsão meteorológica para o dia seguinte. Porém, a sua hora de acordar, fosse qual fosse o dia da semana e a estação do ano, rondava as sete da manhã; a hora de sair de casa, em dias de trabalho, coincidia com as oito e meia.

Quando, ao entrar na idade adulta, fui admitido no escritório, uma das primeiras coisas que aprendi foi que “o Senhor Doutor nunca marca nada antes das dez e meia”, e mesmo diligências, julgamentos, sessões avulsas nos tribunais, eram quase sempre contestadas se violavam essa agenda invisível e partilhada por todos os funcionários: “O Doutor Homem só está disponível depois das dez e meia.” Portanto, a maior parte das (raras) deslocações do meu pai aos tribunais – ele dedicava-se às minudências do direito bancário – antecediam a hora de almoço, reservando as tardes para trabalhar à secretária. Aquela agenda minuciosa significava que o mundo não era, de facto, uma exigência permanente – e que, pelo contrário, tinha de se adequar aos hábitos que, ao longo dos anos, e com muita insistência e estoicismo, o velho Doutor Homem, meu pai, impôs à sua volta.

Maria Luísa sonha com um mundo em que as coisas voltem a uma certa ordem que nunca conheceu. As mulheres da sua idade – a idade perfeita para reiniciar a vida e apreciá-la condignamente – têm tudo a ganhar.

 

{Publicado no Correio da Manhã}

04/12/13

A desilusão do império em Arcos de Valdevez

Em casa do tio Henrique, nos Arcos, não se falava de política – nem à mesa (como o velho Doutor Homem, meu pai, tinha sabiamente prescrito), nem noutro lugar qualquer. Infelizmente, a essa mesa familiar, discreta e saborosa, no casarão escondido por amieiros e freixos de Arcos de Valdevez, era possível ouvir o Tio Henrique discretear sobre as campanhas de África ou o seu sonho de compor uma obra sinfónica sobre as aventuras ultramarinas dos portugueses, mesmo depois da queda de Dadrá e Nagar-Aveli e do seu desaparecimento do depois defunto Estado Português da Índia.

A frase é complicada mas traduz o espírito: à medida que esses pequenos territórios iam sendo ocupados pelos seus actuais donos (até 1961 seria a vez de Goa, Angediva, Simbor, Damão, Gogolá e Diu), o Tio Henrique redobrava de fervor imperial e ninguém estranharia vê-lo, desgrenhado e de dólmen e bandoleira, imitar os miguelistas de Macau – que, numa noite de boémia patriótica, ameaçaram invadir a China.

Depois de o último dos territórios ter sido absorvido pela Índia, esperava-se que o Tio Henrique caísse num estado de prostração e de melancolia. Não aconteceu. Mesmo tendo sofrido um abalo desta natureza, o improvável melómano dos Arcos sobreviveu aos desafios da História e, tirando um período em que manifestou um interesse perigoso pelas obscuras experiências científicas do Padre Himalaya, pareceu perceber que o seu tempo tinha passado. O velho Doutor Homem, meu pai, tentou consolá-lo: fez-lhe saber, cuidadosamente, que o destino do império estava traçado desde que, em 1822, nasceu a lenda de D. Pedro atravessando o Ipiranga. O Brasil era apenas a primeira peça desse dominó; por isso, acrescentava o causídico, com o cinismo cultivado pela destreza de um ‘snob’, restava-nos “cultivar o nosso jardim”. A citação era perigosa, vinda do ‘Cândido’, de Voltaire, mas transportava uma profundidade amarga e conservadora, como se lhe dissesse, ao ouvido: “Resta-nos o Minho, cá nos aguentaremos.”

O Tio Henrique nunca mais saiu do Minho, de facto. O resto da humanidade não parecia interessá-lo, desde que lhe fosse permitido ensaiar o seu oboé, passear entre os amieiros, fumar charutos canarinos e ler ‘O Primeiro de Janeiro’.

Ele e a Tia Florbela eram um casal feliz. Em Agosto, saíam dos Arcos para se sentarem à mesa do almoço anual dos Homem, e ficavam uma semana em Ponte de Lima; gostavam das visitas do Tio Alberto, o bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, que lhes levava travessas com sardinhas de escabeche e opúsculos raríssimos sobre os sertões de África. Não viviam neste mundo.

 

04/12/13

Uma recordação sobre a poesia no Outono

Já um dia tive a oportunidade de explicar aos leitores pacientes que o velho Doutor Homem, meu pai, dedicava uma grande parte da sua biblioteca aos poetas românticos ingleses. Estes eram as suas pérolas bibliográficas, ao contrário de mim, que me concentrei em ninharias de botânica, história regional e geografia do Alto Minho, e do Tio Alberto – o bibliófilo de São Pedro de Arcos –, que coleccionava quase tudo mas devotava uma atenção erudita a assuntos de gastronomia.

O prazer que o velho Doutor Homem, meu pai, obtinha da leitura dos seus poetas e da contemplação desses livros (Tennyson, Byron, Shelley, Keats) não tinha a ver com nenhum tipo de dedicação à literatura ou às figuras literárias. Em abono da verdade é necessário dizer que abominava vates em carne e osso; em seu entender, um poeta não tinha o direito de se apresentar vivo. Essa sua repulsa era conhecida da família, tanto como a sua paixão pela poesia. Compreende-se. Formado no respeito pela leitura, achava os autores simples instrumentos de uma entidade superior e, geralmente, pessoas com defeitos superlativos, desde a vaidade à falta de maneiras, passando pelo mau hálito e pelo oportunismo político. Acresce ainda que a família, uma espécie de sebe miguelista do Alto Minho, detestava “o regime” – e “o regime” era, sobretudo, a colecção de inanidades literárias e patrióticas quer do constitucionalismo, quer da República, quer do círculo do dr. Salazar. Tudo com poucas excepções, numa galeria cheia de vates melancólicos, mimados e depressivos ou, aqui e ali, poetas cómicos que erraram o seu destino, tratando assuntos que poderiam parecer sérios, como as aldeias de Portugal, a humildade do povo, a democracia, as lavadeiras do Mondego, o Cristo dos pobres ou as saudades de um amor justamente perdido (até por castigo).

Hoje, raramente leio poesia – à excepção de versos que lembram a minha adolescência ou a formação da minha idade adulta. Os meus irmãos acham esta ideia um despropósito, porque insistem em que eu não tive adolescência e acreditam que nasci já adulto, vestido de ‘tweed’ e celibatário. Nessas alturas, argumento que a métrica, a gramática e um bom vocabulário também fazem falta, coisa que até os poetas galegos sabem.

A minha sobrinha Maria Luísa indigna-se bastante nestas ocasiões. Mas ela supõe duas coisas erradas: que basta haver poetas para haver poesia, e que basta alguém escrever poesia para o acharmos poeta. Uma coisa não tem a ver com a outra, como se sabe. Só isso explica a beleza deste Outono em Moledo – uma coisa que raras vezes coube, inteira, em versos de certa qualidade.

04/12/13

Uma espécie de vigilante de um museu de província

Por algum motivo que me tem escapado nos últimos sessenta anos, os casos de celibato multiplicaram-se na família, ao longo de várias gerações. O assunto ou nunca mereceu comentários – ou eu não quis ouvi-los depois de dobrar os quarenta e de me ter conformado com essa existência medíocre e relativamente solitária, longe da puericultura, das disputas conjugais e das alegrias do matrimónio. Do Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, todos conhecíamos a sua relação com uma princesa do Cáspio (hoje sepultada em Genebra, segundo a sua vontade), e sabíamos que, mal despontassem as primeiras neblinas de Agosto, ele partiria, discretamente, para atravessar as fronteiras que o separavam das flores do seu romance.

À Tia Benedita, legitimista da família e uma espécie de marco geodésico de todas as excentricidades dos Homem, não agradavam estes exemplos. Ela considerava que o celibato obrigava os seus padres de Ponte de Lima (a quem conhecia os flagrantes mais criticáveis), mas deslustrava a gente de casa como se tivesse sido recusada no altar. Mas a família conhecia casos ambivalentes. A viuvez, na flor da idade, da Tia Henriqueta, fez supor um segundo casamento; ilusão: permaneceu solitária, no casarão de Vila Praia de Âncora, com a sua cozinha perfumada pela melhor culinária do Alto Minho e os rumores de uma paixão sáfica que emprestava ao seu riso um tom de melancolia aristocrata. O meu avô, administrador de quintas no vale do Douro, falava da sua viuvez como de um estádio de repouso entre os afazeres do escritório. A própria Tia Benedita, viúva aos cinquenta, dedicou o resto do seu tempo à religião, aos retratos do senhor Dom Miguel e à jardinagem (de gosto duvidoso, segundo o velho Doutor Homem, meu pai).

Mas ela desconfiava: achava que as portas do celibato eram apenas uma passagem obscura para a estroinice e as tentações maçónicas, porque – sem rei a sério, como ela supunha que existisse antes de 1820 – o mundo estava abandonado à sua sorte, o que significava que tudo estaria condenado a ser corroído pelo bolchevismo, pela imoralidade e pela República, uma trindade que pretendia ver em todos os esconderijos do seu planisfério.

Havia nisto um certo exagero. Com o passar dos anos, a família desinteressou-se dos velhos princípios. O velho Doutor Homem, meu pai, era um dândi da Foz portuense. Eu, seu filho, limitei-me a escolher o caminho mais fácil. Hoje, sou apenas o guardião do retrato de Dom Miguel, uma espécie de vigilante de um museu de província.

04/12/13

Uma aurora boreal no céu de Gibraltar

A vaidade de um velho minhoto, quase contemporâneo do Titanic (falhei por uma década), haveria de surpreender o velho Doutor Homem, meu pai, habituado a não se comover com as provas do desvario do mundo e a emprestar pouco crédito à capacidade de os portugueses se escandalizarem ou escreverem maus sonetos por quase nada.

Desta vez, foi a Dra. Celina que, na sexta-feira da semana passada, me trouxe a novidade: “Olhe o que encontrei na livraria.” E mostrou-nos a capa do livro que reúne as crónicas publicadas nesta página nos últimos anos. O Dr. Boavida, com a sua proverbial generosidade, já tinha enviado um exemplar em segredo – que a minha sobrinha Maria Luísa levara para Braga, a fim de me poupar à humilhação de encontrar nas estantes um livro com o meu nome no frontispício.

Sou, portanto, da idade da Turquia e da Mongólia russa, acontecimentos que nunca tiveram importância na minha vida ao longo do último século. Entrei na idade adulta, praticamente, no ano em que o mundo foi surpreendido com uma aurora boreal em Gibraltar e em que o Tio Alberto, o nosso bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, lamentou a morte de Gabriel D’Annunzio e me explicou, largamente, quem era Kemal Ataturk. Anos depois, o Tio Alberto, o maior viajante da nossa família (a despeito da indignação da Tia Benedita, a matriarca miguelista dos Homem), atravessaria o Bósforo na perseguição do amor da sua vida, até às margens do Cáspio. Daria um romance, dois romances, nenhum deles escrito ou a escrever – a queda da família para a literatura também está no domínio da vaidade, porque se habituou a coleccionar frases vergonhosas nos autores consagrados para provar que o liberalismo e, depois, a República, tinham maioritariamente produzido autores menores, incapazes de cumprir as regras da gramática e, ao mesmo tempo, produzir beleza.

Aos quarenta anos, quando o velho Doutor Homem, meu pai (já conformado com a minha inabilidade para o matrimónio ou, até, para o amor), decidiu considerar-me sócio do seu escritório de advocacia no Porto, começou a guerra em Angola e a Tia Benedita, já viúva, decretou que os russos tinham enviado o astronauta Iuri Gagarin ao espaço a fim de ameaçar a humanidade com o bolchevismo. Nessa altura, espremíamos a pasta de dentes pelo fundo, e as melhores navalhas de barba eram espanholas. O meu avô, administrador de quintas no Douro, adoeceu subitamente e morreu em paz num Verão cheio de japoneiras vermelhas.

Saiba o leitor que nada disto vem no livro – que é só vaidade. Tudo o resto se esconde.

04/12/13

Páginas de doutrina e crítica literária

Em matéria de leitura, os Homem sempre desconfiaram das virtudes literárias da poesia. Excepção feita, como já informei os leitores, ao meu avô paterno, administrador de quintas do Douro e confidente de Guerra Junqueiro em Barca d’Alva. No regresso das suas viagens pelos vales do Douro, o velho Doutor Homem, meu pai, interessava-se pelas notícias que incluíam menções ao autor de “O Melro”, proprietário da Quinta da Batoca, a quem acusava de ser autor de má poesia. Porém, nas suas estantes, os poetas ingleses e os versos de Sá de Miranda tinham um lugar garantido. Por formação e deformação, continuei a tradição da família, lendo os poeta necessários mas não os incluindo na prestação de cuidados à minha pobre educação sentimental, mais credora de desilusões do que de métrica e metonímias.

A minha sobrinha Maria Luísa pensa que sou uma alma penada sem sensibilidade e, por extensão, um machista empedernido que não dá ouvidos ao “lado mais afectuoso” das letras, o que não é verdade. Ela comove-se facilmente com poetas que desarrumam o dicionário e são considerados humanistas e homens de letras; quanto aos romancistas, tem as suas preferências por histórias familiares que eu li há muito nos romances populares ou nos folhetins de antanho. A literatura popular enchia as férias de Ponte de Lima e os areais de Moledo e Afife sem cerimónia e sem regras. Eram volumes que não ficariam bem na Biblioteca Geral da Universidade (refiro-me à de Coimbra), mas que ilustrariam qualquer época balnear – liam-se bem, da mesma forma que se digeriam bem as cataplanas de Vigo: tinham sabor, vinham ao gosto de todos e tinham marisco em abundância.

As senhoras que hoje escrevem romances de família são excelentes namoradeiras e conhecem a maquineta que comanda as emoções – um casamento desfeito, uma família desorganizada, vícios normais para a idade e interrogações chãs e acessíveis sobre ser adulto e padecer de apetites sexuais maiores do que permite a força humana.

Melhor do que isso fez a literatura popular de outros tempos, que nos ofereceu O Conde de Montecristo, A Ilha do Tesouro ou, bem vistas as coisas, alguns dos folhetins avulsos de Camilo, com a vantagem de serem bons em gramática e de não se levarem a sério no mais importante.

Diante do vastíssimo número de escritoras viciosas de hoje em dia, o velho Doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de, por chalaça, chamar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica.

 

04/12/13

Um família conservadora e os casamentos de Verão

 

Quando, durante um almoço de domingo de há uns anos, a minha sobrinha Maria Luísa anunciou o seu terceiro casamento (que não chegou a realizar-se), houve um certo burburinho à mesa. O ruído extravagante de talheres e um súbito tossicar por parte de alguns dos meus irmãos, não se deveu ao anúncio do casamento propriamente dito – mas ao facto, ainda mais extravagante, de quase ninguém ter tomado conhecimento do segundo divórcio.

O assunto esgotou-se com alguma rapidez e não sobreviveu à sobremesa de leite-creme com framboesas espanholas, uma pequena intromissão de dona Elaine para interromper o embaraço familiar, com a travessa depositada na mesa para causar aquele efeito esperado: um aplauso comedido e comovido, semelhante ao que era provocado pela chegada do arroz de pato da Tia Henriqueta à vasta mesa do sobrado de Vila Praia de Âncora.

Os casamentos da família nunca tiveram grande história, ou porque nas nossas estantes existem demasiados livros de Camilo, ou porque o sentido da moralidade foi lentamente expurgado – pela repetição de episódios romanescos – ao longo dos anos, da tentação do escândalo.

Mas houve casamentos, sim. Assisti a uma lista infindável de bodas, sensatamente programadas para sábados caniculares dos Verões de Ponte de Lima, dos Arcos ou de Viana; sobrevivi à maior parte deles, tentando não me enganar nos nomes dos noivos e, em certas ocasiões, resistindo educadamente ao prolongamento das cerimónias, como um celibatário histórico.

A Tia Benedita era chamada a participar em quase todos; a sua presença conferia mais solenidade aos festejos, como se o facto de ela se sentar num dos lugares de honra fizesse supor que o almoço seria apresentado em loiça da Companhia das Índias.

O velho Doutor Homem, meu pai, aguardava pelo momento definitivo das fotografias de grupo – e ele sabia, sorridente, que se tratava de um espectáculo imperdível. Arrumados os convidados e os membros da família, os mais recentes ou aqueles que rescendiam à fundação da Monarquia, a Tia Benedita lançava um olhar severo, varrendo a composição com a sua frase do costume, em surdina: “Os apêndices para os seus lugares.” Queria ela dizer, habituada a separações e divórcios informais, que os sucessivos genros e noras se deviam colocar nas margens das fotografias para ser mais fácil recortá-los depois, em caso de “catástrofe”. E os “apêndices” lá iam, serenamente, obedientemente, a ocupar os segundos planos que podiam mais tarde ser, ou não, decapitados.

04/12/13

As coisas que ficam depois do fim do mundo

O velho Doutor Homem, meu pai, achava que não se devia contrariar o “espírito do tempo”. Ele conhecia a palavra “Zeitgeist”, mas não a usava; Dona Ester, minha mãe, prendia-o ao mundo das coisas terrenas – e o seu bando de filhos importunava-o o suficiente.

Recordo hoje o seu silêncio, passados tantos anos, disfarçado de dedicação e de alguma solenidade. Imagino-o embalado pelo Verão, distraído pelas coisas vulgares, incomodado pelos ruídos da família.

Talvez por isso, o Verão é a minha estação do ano: rodeado de adolescentes tardios e de sobrinhos que atravessam a idade madura sem abdicar da juventude, aprecio o fim do meu mundo. Depois de dobrar os oitenta, cada dia é um pedido de empréstimo ao destino e pergunto-me sobre o que restará depois de tudo desaparecer.

São enumerações no meio do caos, mas sem tristeza nem angústia: o sorriso de Dona Ester, debruçada sobre os toldos do areal de Moledo; o humor cáustico do velho Doutor Homem, meu pai, cruel e malévolo como se tivesse toda a eternidade para expiar os seus pecados e a sua ironia; o primeiro amor perdido; o primeiro livro que me conduziu ao amor sem futuro; os gestos de conformismo e de aparente tédio; o fingimento delicioso que esconde a devassidão e o desejo; o guarda-roupa inglês do velho Doutor Homem, meu pai, e os dois carros italianos do Tio Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos; a ausência aparente da Tia Benedita quando a família sofria de deslizes democráticos; as longas conversas com Dra. Celina, destituídas de uma finalidade grave e alimentadas pelo prazer de amar Moledo e as suas memórias; o optimismo da minha sobrinha Maria Luísa e a sua crença na bondade de um mundo que nunca chegará a existir; um barco que atravessava as correntes do rio, diante de Caminha, e onde os meus irmãos riam com a leveza quase absurda do Verão; a primeira doença que a Dra. Teresa (a minha médica de Venade) assinalou no capítulo dos “males crónicos”; os livros que nunca emprestei e cuja leitura nunca recomendei por pura soberba; o arroz de pato da Tia Henriqueta; o arvoredo do casarão de Ponte de Lima, onde a família se recolhia uma vez por ano para visitar o retrato do senhor Dom Miguel, mantendo tradições que ninguém compreende. A lista é infindável. Tão infindável como o mundo que não termina para já. Esse é o nosso prenúncio de felicidade: as coisas que não são para já, que podem aguardar até que o Livro da Vida seja tocado por uma penumbra de despedida. Ou de delicadeza.

04/12/13

Declaração de amor ao clima de Moledo

As multidões estão preocupadas e compreendo a natureza da apreensão: que o Verão está frio ou, pelo menos, que não atinge as proporções de outros anos, aqueles que a minha sobrinha Maria Luísa apontava como prova de que o aquecimento global iria transformar-nos em habitantes do deserto. As neblinas matinais resolveram, este ano, prolongar a sua existência até ao final do dia, quando se renovam para ameaçar a manhã seguinte; o manto de penumbra que paira habitualmente sobre os picos da Serra d’Arga, como uma nuvem densa e calorífera, está durante este Verão diluída entre correntes de ar que descem e sobem sobre a foz do Minho, arejando o litoral.

No Verão gostamos de calor, para protestarmos pelo excesso. No Inverno apreciamos o frio, para nos queixarmos da inclemência. O velho Doutor Homem, meu pai, achava isto o resumo de uma sensibilidade, a legenda da identidade nacional: a insatisfação diante dos Elementos, à falta de – em dias certos – culpar a própria pátria ou, em horas mais absurdas, de os portugueses se culparem a si próprios.

A mim parece-me excelente esta temperatura. Mas eu sou um velho; habituo-me com resignação às oscilações do clima tal como à sua eventual duração, às suas birras e aos seus maus modos. Moledo é, por isso, a prova absoluta da insatisfação dos portugueses, sobretudo daqueles que ainda não entenderam as subtilezas do clima e rumam para o Algarve, voltando as costas à rebelde doçura do iodo minhoto, à sua blandícia matinal, às suas recordações de Verões de outrora.

Pelo contrário, as novas gerações (que abrangem as pessoas abaixo dos cinquenta e acima dos vinte), criadas na paixão pelos trópicos e pelo bronzeado fácil, onde as noites não sossegam e os dias são a antecâmara dos desertos africanos, tremem de indignação diante desta beleza incompreensível pelos seus padrões. Ao contrário do resto da minha família, que protesta contra a ameaça de frios árcticos em pleno mês de Agosto, só eu e Maria Luísa – por razões diferentes – nos declaramos satisfeitos com as graças recebidas. Eu, porque sou um conservador que tem mais em que pensar; Maria Luísa porque gosta de estar “do contra” e acha uma razoável consolação no facto de a Natureza atraiçoar as burguesias que gostavam de ver o Algarve estacionado às portas de Vila Praia de Âncora. Ou seja: eu, porque aproveito para elogiar o clima de Moledo; Maria Luísa, porque encontrou uma forma de esquecer a ameaça do aquecimento global. Somos uns hipócritas.

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