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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

26/01/14

Vivien Leight no areal de Moledo

«Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes.»

 

A minha relação com o cinema é ligeira, antiga (há mais de vinte anos que ignoro o que acontece fora de Moledo) e feita de muita ignorância, mas, naquela época – eu teria cerca de vinte anos –, talvez quisesse ter-me casado com Vivien Leight, não por causa de ‘E Tudo o Vento Levou’, onde foi Scarlett O’Hara, mas por causa de Blanche DuBois, papel que ela representou ao lado de Marlon Brando. E eu, na minha superlativa vaidade, só poderia ter sido Brando ou, então, Richard Burton (totalmente afastada a hipótese de me fazer passar por Clark Gable). Porquê Brando? Por causa de Blanche DuBois em ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’. Porquê Burton? Por causa de ‘Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?’, um filme que trai a minha idade mas que justifica o meu celibato.

Destas revelações, que só o Inverno propicia, a minha sobrinha Maria Luísa fixou apenas Vivien Leight – eu não poderia explicar-lhe quem foi Claire Bloom, uma actriz de beleza tempestuosa e triste, que os leitores certamente já esqueceram. Maria Luísa acha Blanche DuBois um nome fatal do teatro e um exemplo de primeira grandeza para o feminismo, assuntos que ou me ultrapassam ou me deixam em grande desvantagem numa conversa de sociedade. Mais tarde, falhados os principais amores da minha vida, eu fugia de tudo o que pudesse complicar mais a minha vida, dedicada à mediania da vida familiar e ao cumprimento de tarefas que asseguravam a possibilidade de viajar e economizar para a velhice. Quando esta chegou, como sempre acontece, era tarde para voltar atrás.

Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, pensa – por vezes – que me fez falta uma companhia feminina e, provavelmente, uma “família normal”. Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes: sobrinhos enamorados ou ruidosos, irmãos que vivem angustiados com os problemas do economia, sobrinhos-netos que crescem no meio da ignorância e da internet, e pessoas amáveis que às vezes vêm ajudar-me a entender a harmonia das coisas. A Dra. Celina, por exemplo, dá-me notícias da sua filha que estuda em Lisboa. A minha sobrinha Maria Luísa descobriu agora o prazer de cozinhar e, ao crepúsculo de sábado, recolhe-se junto do fogão como uma esquerdista cheia de ternura. Este empréstimo de beleza basta-me. Ao canto da sala, Vivien Leigh lê um romance da moda e, de vez em quando, imagina como teria sido a sua vida sem mim.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

22/01/14

Passagens do tempo a meio do Inverno

«O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado.»

 

Entretenho-me com memórias da família. O senso comum manda que o Inverno, com as suas depressões e dias de chuva seja um período dedicado ao assunto: noites para revisitar a memória, curtas tardes de sábado para recolocar fotografias nos álbuns, crepúsculos melancólicos para meditar sobre a torrente dos anos que passaram. Na minha idade, dobrado aquele ponto de onde nunca mais se divisa o ponto de partida, todos os momentos são dedicados à memória, mesmo quando ela diminui gravemente.

A generosidade, talvez por isso, chega com o passagem do tempo; à distância apreciam-se melhor os momentos que não podem regressar. E somos mais condescendentes, mais generosos, menos dados ao rigor ou à fúria. É a única coisa valiosa que se aprende com a idade: a envelhecer. Como se se envelhecesse para se aprender a envelhecer. O Tio Henrique visita-nos durante o Inverno; vestido com o seu velho casaco de lã, toca oboé ao canto da varanda, aprecia a chuva que cai sobre as faias de Arcos de Valdevez. A Tia Benedita dá os seus passos firmes pelo corredor do velho casarão de granito em Ponte de Lima e, a meio, pára a fim de limpar com o xaile uma pequena mancha de humidade no retrato de Dom Miguel, sem o mínimo sinal de tristeza.

O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado. O Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, acende a lareira e senta-se no seu cadeirão voltado para uma estante onde se extingue a memória do seu século – atravessou continentes, é o aventureiro da família, o homem que roubou o coração a Svetlana Davydovna e conheceu o céu sobre Astrakhan, aberto sobre o Cáspio. Poucas vezes falou dela em família: era o seu segredo velado. Conhecendo a tendência dos Homem para a maledicência, poupou Svetlana, a sua princesa russa, ao lado de quem queria ser sepultado em Genebra. Ficou no Minho; ficámos todos no Minho, aguardando o nosso juízo final, igualmente sem tristeza, conformados com a geografia e os nossos vícios.

As gerações da família transmitem as recordações umas às outras, como num álbum de retratos que se herda de um museu. Dona Ester, minha mãe, acena aos seus bisnetos no areal de Caminha, onde o rio se perde na ondulação até não existir mais; a minha sobrinha Maria Luísa, a quem contei estes devaneios, acha que é tema de romance. Não. É apenas o tempo que passa e que nos deixa mais humanos, mais resistentes à gripe, mais sorridentes.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

15/01/14

O mar de Biarritz e as recordações de um velho

«Dona Ester acreditava que os rapazes bronzeados e as raparigas desempoeiradas eram abençoados pelo iodo e transformavam-se, com o tempo, em gente saudável.»

 

O velho Doutor Homem, meu pai, e Dona Ester, minha mãe, enamoraram-se em Biarritz num mês de Julho sem história, à beira de uma praia que quase ninguém frequentava porque estava mau tempo e chovia com abundância; o pormenor acabou por aproximá-los. As famílias de ambos tinham o costume de, de dois em dois anos, passar aí uma temporada (duas semanas, uma eternidade). Eram gente moderadamente rica sem a vertigem da fama ou da vulgaridade, e creio que davam passeios pela costa, falando o francês dos romances da época e da má imprensa parisiense. Trinta anos mais tarde, depois dos horrores da II Guerra, a família visitou o lugar – éramos muitos, a viagem era terrível através de uma Espanha sitiada por estradas ruins e vigiada por carabineiros de bigode, e Biarritz já não era o paraíso daquele primeiro quartel do século, procurada por pessoas que sabiam ler e se vestiam para jantar nas varandas dos hotéis. Mas era necessário recordar o episódio. De vez em quando, pelo menos até os meus irmãos e irmãs (éramos cinco no total) terem casado e criado os seus próprios itinerários familiares, fazíamos a peregrinação; eu era o mais velho, ainda não sabia que seria poupado à felicidade do matrimónio e da puericultura, e tornara-me proprietário da caneta Parker com que o velho Doutor Homem, meu pai, assinara o seu assento de casamento.

Ao contrário desse Julho de Biarritz, não me recordo de temporadas inclementes durante os verões da minha adolescência e juventude, passados quase sempre no Minho, ao qual sempre pertenci como um pinheiro melancólico à beira das dunas de Caminha e Moledo. Os invernos eram cruéis e as ventanias e tempestades da Galiza concentravam-se por toda a costa até às rochas de Leça e às ondulações que entravam Douro dentro, transformando a Afurada num cenário de devastação. Conhecíamos o mar e sabíamos como os arredores do Neiva, de Montedor ou de Âncora podiam ser perigosos.

No Verão, Dona Ester lançava-nos nos areais de Afife para que nos bronzeássemos e a pele secasse com a água salgada a que atribuía virtudes curativas e prolongadas. Dona Ester acreditava que os rapazes bronzeados e as raparigas desempoeiradas eram abençoados pelo iodo e transformavam-se, com o tempo, em gente saudável.

Na semana passada recordei esses momentos, como um velho atacado pelo demónio sentimental. A minha sobrinha Maria Luísa mencionou os temporais, com honra de televisão e alertas vermelhos. Lembrei que não se pode querer viver debruçado sobre o mar sem considerar que é necessário protegermo-nos dele.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

15/01/14

As histórias são sempre as mesmas

«Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”»

 

 

O velho Doutor Homem, meu pai, considerava que A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco, era o livro que melhor servia os interesses dos curiosos em história portuguesa do século XIX. Na verdade, nessas páginas habitava uma galeria de celerados, loucos, gente sensata e virtuosa vivendo paredes-meias com frades apóstatas e traidores das milícias minhotas, mulheres intempestivas, homens covardes, pregadores violentos, pecadores arrependidos, gente picaresca, enfim, de tudo um pouco. Um dos personagens, o pedreiro Zeferino das Lamelas, julgou morrer de amores por Marta, que tinha o seu coração prometido a José Dias e o dote garantido pelo que viria a ser, afinal, o seu futuro marido, um tio brasileiro muito forreta e sem carácter. Era deste Zeferino que queria falar, não por ser um modelo de virtudes mas por ser um fala-barato que acabaria morto atrás de um muro em ruínas, a coberto da noite, às mãos de um bando de assassinos a soldo, que assim facilitavam a vida ao pai de Marta, que poderia finalmente negociar com o brasileiro que em breve chegaria disposto a comprar as melhores quintas da região. Confuso? Naturalmente (e poupo os meus leitores e leitoras ao conhecimento de outras agonias crepusculares). Para isso servem os romances, tirando os de Mrs. Trollope, em que tudo acaba a contento.

Resumidamente, julgava o velho Doutor Homem, meu pai, nos meus momentos de desmoralização, aqui estava uma boa ideia sobre como falar da história de Portugal.

Hoje em dia, ao serão, evito cada vez mais ver televisão: tudo medido e considerado, não se acrescenta muito ao conhecimento que temos do género humano ou do destino da pátria. Dona Elaine não perde as novelas e, na cozinha ou na sala, saltita de uma para outra, mudando de canal, creio que misturando as personagens e as histórias de todas elas. Manifestei-lhe essa preocupação. Ela tranquilizou-me:  “O senhor doutor não se incomode, porque as histórias são sempre as mesmas. Em perdendo um capítulo numa delas, logo se apanha na outra.”

Num país tagarela, feito à medida do Zeferino das Lamelas – o personagem de Camilo –, isto ocorre com muita frequência. Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

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