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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

05/04/14

Lições de economia num mundo de idiotas

«O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas.»

 

 

O meu irmão mais novo é economista. Ele herdou o escritório do nosso avô em 1965 – exactamente o mesmo que, quarenta anos antes, em Janeiro de 1925, foi tomado de assalto por milícias republicanas que ali foram procurar promissórias e bombas reaccionárias escondidas debaixo dos tapetes. Na época, o avô – administrador de quintas inglesas do Douro – recorreu a uma amizade académica, o radical e incendiário presidente do Ministério, José Domingues dos Santos, matosinhense de quem fora colega no burguês mas solene Instituto Superior de Comércio do Porto, que mandou desmobilizar a púrria.

De 1965 até hoje a ciência da contabilidade transformou-se bastante e o meu irmão protesta, com veemência e estatísticas, sempre que (por cinismo mas boa fé) lhe recordo os erros das previsões económicas, o que aproxima a sua classe tanto dos meteorologistas de antanho como dos astrólogos de hoje.

A nossa fé no Dr. Anthímio de Azevedo em nada se compara com a desconfiança nos economistas; o meteorologista explicava pela televisão, de ponteiro na mão, como poderia evoluir o anticiclone dos Açores e como as chuvas do dia poderiam terminar num céu obtuso ou num firmamento limpo – o seu crédito era ilimitado porque os astros eram imprevisíveis. Já com os economistas da televisão a situação é bem diferente. Rodeados de estatísticas, os economistas manejam-nas da mesma forma que Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, esconde a sua receita de pudim de peixe.

Porém, onde o Dr. Anthímio de Azevedo mostrava a imprevisibilidade dos Elementos, os economistas da televisão consideram a infalibilidade dos números, com a diferença de que as previsões dos astrólogos nos ficam consideravelmente mais em conta. O meu irmão não concorda; ele acha que a crise se deve a factores que os economistas estudam com empenho e seriedade, e que vamos demorar vinte anos a recuperar da hecatombe – um tempo que, quando chegar ao Alto Minho, já não me encontrará vivo.

O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas. Com toda a probabilidade, teria razão. E, confrontado com a previsão de vinte anos para abandonar a crise, ele teria considerado – antes de voltar à leitura do Telegraph – que isso era bem possível, desde que eliminassem os idiotas. 

05/04/14

Um pequeno elogio ao bigode fora de moda

 

«No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.»

 

As minhas irmãs não cessam de se actualizar com as coisas do mundo. Como são as mais novas de um grupo de cinco irmãos, têm a seu favor a palavra “modernidade” e quase nada daquela parte do mundo que fica fora de Moledo lhes é desconhecido. Periodicamente mencionam novas dietas e novas religiões que fazem de nós, simples mortais, provincianos de um mundo que não tem fim. A determinada altura conseguiram conciliar uma forma de meditação oriental, de que agora me não recordo, com um regime de baixas calorias que certamente as tornava mais felizes. A propósito disso, a minha sobrinha Maria Luísa acha que eu tenho um preconceito contra as “coisas novas”, estatuto que eu aceito obedientemente, como convém a uma espécie cordata de miguelista do Alto Minho.

Apesar de tudo, houve um tempo em que eu era menos velho. As minhas irmãs, por exemplo, dão como adquirido que eu nasci já depois da adolescência. Elas referem-se a um gosto desajustado, mesmo para a época, por andar bem barbeado e vestido com sobriedade. Conservo o meu bigode desde esse tempo da juventude, nem à Clark Gable, nem à Santos Dumont, se bem que, ao dobrar os trinta, Dona Ester, minha mãe, o achasse demasiado parecido com o de um retrato do ‘Kaiser’ Guilherme II – o que levou a uma consequente aparadela, com o corte que ainda hoje apresenta (ela gostava muito de ver os filmes de Omar Shariff).

O meu sobrinho Pedro deixou agora crescer o bigode, o que não desagradou a Isabelle, a sua namorada holandesa. O argumento familiar é simples: voltou a “estar na moda”. Mas a jovem frísia, criada entre holandeses escanhoados e antepassados de vastíssimas barbas aloiradas, creio que considera o bigode um enfeite mediterrânico e um pormenor aristocrata. Depois de ter sido banido durante algumas décadas, o bigode está prestes – segundo entendo – a regressar aos nossos retratos.

O velho doutor Homem, meu pai, dizia que o passado regressa amiúde para se rir, ou das coisas modernas, ou da vontade de criar modas. Maria Luísa, sem o saber (ela é uma mulher inteligente criada nos anos oitenta), encarou a hipótese e sugeriu que, por embirração, eu talvez devesse considerar a ideia de cortar o bigode. Esclareci que, para mim, não se trata de um adereço, mas de um hábito, como o café de cevada ao pequeno-almoço. No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.

05/04/14

A pátria familiar e as saudades de Dona Elaine

 

«O velho Doutor Homem, meu pai, sonhava com os alfaiates de Londres; Dona Elaine, suspira quando recorda as canções de Dick Farney sob o crepúsculo da Avenida Rio Branco, no Rio.»

 

De vez em quando, Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, declara que tem saudades. Mais do que pela menção às saudades, propriamente ditas, é o timbre que assevera a autenticidade da proclamação, entre o pequeno-almoço e aquele momento em que o ar da manhã entra pela porta da cozinha, juntamente com o ruído da chuva no pinhal junto de casa e o ondular permanente do mar do Minho, cavo e familiar. Emigrante no Brasil, para onde foi com os pais, que se estabeleceram como comerciantes no Rio, Dona Elaine regressou a Cerveira depois de ter enviuvado. Trouxe com ela o essencial: dinheiro para reconstruir a modesta casa dos seus maiores (que, assim, deixou de ser modesta sem abandonar a sua aldeia natal), as arrecadas e algum vício do mundo – aquilo que, à sua medida, se pode considerar o pórtico de algum cosmopolitismo. O último quartel do século XX já não era, no entanto, o tempo dos “brasileiros” de Camilo e do Porto, Famalicão, Braga ou Barcelos. O tio Alfredo, que regressou dos sertões só depois da morte do dr. Salazar (e que se manteve assinante da Gazeta do Pernambuco), amealhara o suficiente para se instalar na sua quinta de Afife – e sofria das mesmas saudades, como se a pátria lhe tolhesse os movimentos ou lhe provocasse o tédio dos insones.

Os portugueses amam terrivelmente o seu país, mas amiúde gostariam que ele fosse outro qualquer. Afastados da sua horta, choram as harpas dependuradas sob os salgueiros, como os exilados de Sião; regressados, declaram que têm saudades. Esta contradição não é aparente – é verdadeira, salvo no caso do velho Doutor Homem, meu pai, que passou os melhores anos da sua vida imaginando ser um lorde inglês que aos sábados discreteava com o Dr. Samuel Johnson acerca de genealogia, lápides funerárias e questões de geografia das Hébridas. Ai dele, limitava-se a alimentar uma família numerosa e a receber o Daily Telegraph em pacotes remetidos do Clube Britânico.

Hoje, a emigração é tratada como um flagelo – como se os portugueses sofressem perdidamente por cada minuto passado fora da linha de fronteira. A verdade é que fomos sempre emigrantes, ou por motivos políticos ou para ludibriar a pobreza. Tirando a Tia Benedita, que considerava “estrangeiro” quase tudo o que acontecera depois da Concessão de Evoramonte, ou que a afastava do casarão de granito de Ponte de Lima, o “estrangeiro” foi sempre a nossa miragem. O velho Doutor Homem, meu pai, sonhava com os alfaiates de Londres; Dona Elaine, suspira quando recorda as canções de Dick Farney sob o crepúsculo da Avenida Rio Branco, no Rio.

05/04/14

A que horas começa o dia em Moledo?

 

«Quando era jovem não tinha insónias. Atribuo o facto à minha vida desinteressante, distribuída pelo escritório, pelo cumprimento dos deveres, pelas amizades discretas e pelas horas dedicadas a leituras enfadonhas.»

 

Os velhos levantam-se mais cedo por dois motivos: dormem menos e, porque são sensatos, recolhem mais cedo. São hábitos de anos que moldaram o carácter e as funções vitais de gerações habituadas a ritmos que, de ordinário, se destinavam a gente que trabalhava cedo, que tinha obrigações domésticas e que acreditava ser bom para a saúde cedo erguer e cedo adormecer.

Até ao aparecimento da televisão, da rádio por vinte e quatro horas, da luz eléctrica, da cafeína distribuída a rodos e dos medicamentos para dormir, os dias de antanho terminavam com aquela placidez que se atribui ao tempo dominado pelo silêncio – o meu e o dos meus avós, e por aí fora, até sermos devolvidos à criação do mundo.

Contra todas as expectativas, acho que esse tempo era enfadonho. Não triste, nem inútil, ou desagradável – apenas enfadonho. As grandes novidades deste tempo comovem-me um tanto, embora não as ache, a esta distância, muito úteis. Servem, certamente, para que a nossa vida fique menos enfadonha; mas peço ao leitor que acompanhe o meu raciocínio: uma vida com sinais enfadonhos não é necessariamente desinteressante ou triste. A vida não tem de assemelhar-se às festas da Senhora da Agonia vistas dos pinhais dos arredores, nem havia pirotecnia que chegasse. Há, portanto, um preço a pagar pelas coisas.

Hoje, dobrando aquela idade que não me transporta a mais memórias mas apenas às primeiras franjas do esquecimento, continuo a levantar-me cedo e a aproveitar a bonomia das madrugadas, apesar de sofrer periodicamente de insónias. Levantar-me cedo oferece-me um bom momento do dia. Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, serve o pequeno-almoço a partir das sete e meia (eu apareço um pouco depois); há vinte anos que se repete, dia-a-dia, o cardápio do pequeno-almoço (torradas e café de cevada), tal como a sobremesa do almoço de Ano Novo.

Quando era jovem não tinha insónias. Atribuo o facto à minha vida desinteressante, distribuída pelo escritório, pelo cumprimento dos deveres, pelas amizades discretas e pelas horas dedicadas a leituras enfadonhas. As minhas irmãs, que sempre me olharam com a curiosidade que se deveria devotar a uma espécie rara, acrescentam a falta de preocupações familiares e a ausência de uma mulher que castigasse a leviandade do meu carácter. Em seu entender, uma esposa deveria proporcionar-me um nível adequado de preocupações, de modo a economizar no sono e a manter-me acordado quando o corpo me ordenasse que dormisse. Foi o que me salvou.

05/04/14

Um velho passa por mal agradecido


 

«Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.»

 

A vida na universidade (a de Coimbra) sempre me pareceu fastidiosa mas “teve de ser”. Ao contrário da descrição jubilosa de ‘Os Maias’, cheia de saraus literários e musicais, adultérios, álcool ou ‘charretes’ subindo e descendo as colinas, as neblinas do Mondego sempre me pareceram coroar uma existência geralmente consagrada a pouco estudo, aos desregramentos noctívagos e ao folclore que, ao longo dos anos, muitos colegas prolongaram em baladas de saudade e alguma melancolia. Como a melancolia é um sentimento nobre, prefiro classificar essas lágrimas como elas me pareceram: pura choraminguice e vontade de repetir épocas de alcoolismo remanescente ou de paixonetas histriónicas. Livrar-me de Coimbra foi, também, livrar-me de uma idade aborrecida e poder viver pelos meus próprios meios. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha de Coimbra (que conheceu durante os anos da República) uma visão oficialmente idílica e muitas vezes, à sobremesa, depois de descrever com uma bem disfarçada minúcia alguns dos episódios fadistas da sua existência universitária, confessava que fora tudo “uma palhaçada”. O seu desprezo por Coimbra foi adquirido depois de ter visitado Londres e, por curiosidade, a verdejante e chuvosa Oxford, onde se sentiu, finalmente, estudante: em vez do lixo das vielas coimbrãs, encontrou a serenidade que aconselhava o estudo; e, em vez das peregrinações boémias e feéricas que percorriam o empedrado de uma cidade cheia de castas, lentes, pudores, bedéis, manias e futuros directores-gerais ou desembargadores, Oxford pareceu-lhe um lar. Para sua – e creio que nossa – infelicidade, foi sempre um conservador de ideias liberais, e um cavalheiro bem vestido, num país que não podia ter uma câmara de Lordes pelo simples motivo de não haver gente com categoria para ascender à posição. O seu desprezo pelo dr. Salazar, tantas vezes exagerado, vinha de ele imaginar aquele pobre homem provinciano, de colete e chinelos, estudando a questão do trigo à luz de candeeiros de petróleo, a uma mesa com camilha e braseira, enquanto no Arco de Almedina decorriam as praxes e as bebedeiras. Livrar-me de Coimbra (onde, séculos antes, a Inquisição condenara um dos nossos antepassados) significou um sincero regresso à vida. Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.

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