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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

07/12/14

Sobre a proliferação de comentadores de economia

 

É o que tem de bom o nosso país; esta gentil ignorância sobre os nossos assuntos faz de nós uns patuscos.

 

Com a idade, há coisas que vamos deixando – ou já deixámos – de discutir, ou porque não têm importância ou porque nos encontrámos finalmente reduzidos à nossa pequena e natural dimensão, e, em consequência, já pouca gente nos liga. Entre essas matérias (muito numerosas) encontram-se o Orçamento de Estado, o buraco do ozono, o desembarque dos “liberais” em 1832, a situação actual do regime bancário português ou, enfim, saber se a D. Jéssica Athayde está – ou não – mais magra. Este último tema foi-me sugerido por Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, e conto um dia pronunciar-me sobre ele.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha por hábito dizer que, em Portugal, tanto a “literatura” como a “indignação” eram coisas que ficavam muito baratas, razão por que se escrevia muito mal na “literatura indígena” – e por que a “indignação” diante do destino ou dos defeitos dos outros nos tinha impedido de procurar fazer coisas bem feitas. No entanto, ainda mais barato do que esses dois flagelos era o fornecimento geral de “opinião” (um produto totalmente gratuito). Tanto assim que a expressão “eu não sei, mas acho que...” é uma das mais frequentes e interessantes do nosso idioma. Só esta ideia (a de “não saber” mas, mesmo assim, emitir uma “opinião”, tão mais enérgica quanto menos fundamentada) permite explicar a extraordinária abundância de comentadores de economia e finanças públicas nas nossas televisões.

Os meus irmãos rapazes são, ambos, economistas (ou “astrólogos”, na gíria familiar – por aqui se vê a fé dos Homem nessa ciência tão sobrevalorizada), seguindo a carreira do nosso avô, administrador de quintas do Douro e antigo colega de José Domingues dos Santos (um esquerdista radical no ocaso da República) no Instituto Superior de Comércio do Porto. Quando lhes peço para confirmarem ou, na maior parte dos casos, para desmentirem esta ou aquela desgraça, ambos encolhem os ombros como se me aconselhassem a não ver telejornais e a dedicar-me a outras matérias, porque de economia sei, digamos, “os rudimentos imutáveis”. Acontece que a generalidade dos comentadores na televisão não são comentadores de economia mas – como me garantem os meus irmãos, a minha sobrinha esquerdista e mesmo o bom Alfredo do restaurante Ancoradouro – de comentadores de outras coisas que também comentam economia e que, desde há quatro anos, não fazem outra coisa, como se estivessem munidos um bacharelato em finanças. É o que tem de bom o nosso país; esta gentil ignorância sobre os nossos assuntos faz de nós uns patuscos.

07/12/14

Dona Elaine e a teoria da literatura

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Dona Elaine acha que os livros velhos constituem contribuições decisivas para doenças conhecidas (a asma, a sinusite, a rinite e a diminuição da vista) e desconhecidas (como a ignorância, por exemplo). Alguns livros das minhas estantes foram conservados na biblioteca de família desde a minha juventude. Na altura sabíamos ler, dividir orações, comentar e sermos tementes aos autores maiores. 

 

Dona Elaine, a governanta deste eremitério, está inconsolável porque terminou uma das suas telenovelas preferidas com um final de que não gostou. O comentário aconteceu uma destas manhãs, à mesa do pequeno-almoço de torradas e café de cevada. Dado ser ainda cedo e a chuva ter regressado aos pinhais de Moledo para os informar da chegada definitiva do Outono, pensei explicar-lhe que isso me aconteceu várias vezes ao terminar um livro – uma personagem que desaparece antes do (meu) tempo, uma acção despropositada, um desfecho sentimental estapafúrdio, uma morte provavelmente injusta. O mundo da literatura é prodigioso em más soluções para histórias fictícias e para histórias reais.

Mas, felizmente, uma brisa de bom senso impediu-me a algaraviada, travando a tempo de deixar a antiga emigrante do Rio de Janeiro a braços com um bibliómano sem nenhuma ligação ao mundo real. As telenovelas portuguesas, de facto, inquietam-me bastante. Dona Elaine não perde uma e conhece os nomes das personagens e a sua genealogia mais longínqua, praticamente da mesma forma que o Tio Alberto conhecia os apelidos das cantoras de ópera do seu tempo. De vez em quando (de mês a mês) “finjo não ver” um episódio – e, mesmo pelo canto do olho, toda a gente me parece deprimida, zangada ou a necessitar de conserto gramatical. Creio que é muito pior do que na vida real, onde podemos dar-nos ao luxo de desviar o olhar.

Dona Elaine acha que os livros velhos constituem contribuições decisivas para doenças conhecidas (a asma, a sinusite, a rinite e a diminuição da vista) e desconhecidas (como a ignorância, por exemplo). Alguns livros das minhas estantes foram conservados na biblioteca de família desde a minha juventude. Na altura sabíamos ler, dividir orações, comentar e sermos tementes aos autores maiores. Talvez as histórias se repetissem de livro para livro (hoje a memória trai-me frequentemente e há personagens que passam de um livro para outro), da mesma forma que hoje as novelas da televisão se repetem com regularidade; entre ricos e pobres, homens e mulheres, felizes e desgraçados, esperançosos ou desiludidos, o género humano não reinventou o amor nem ultrapassou a morte. Dona Elaine, se tivesse lido os clássicos, não seria mais feliz: limitar-se-ia a conhecer outros nomes para a sua vastíssima curiosidade. Por isso limitei-me a confirmar que a telenovela terminou. Houve gente mais feliz; uma senhora má que matou um cavalheiro igualmente mau. Nada que não venha em Shakespeare, murmurei. Dona Elaine julgou que eu estava a pedir mais café.

07/12/14

O efeito do referendo escocês em Ponte de Lima

 

Já quanto à Tia Benedita, por seu lado, ela tinha sido informada pelo clero de Ponte de Lima de que não só a Igreja Anglicana tinha um conflito eterno com Roma, mas que a Escócia era ainda mais anti-papista do que o dr. Afonso Costa.

 

As nossas relações com a Escócia são literárias ou meteorológicas. Menciono “as nossas relações” como se os Homem constituíssem uma espécie de chancelaria e mantivessem laços Estado a Estado – é um resto de vaidade e de mania das grandezas que os leitores benevolentes por certo me perdoarão. Mas como a Escócia não é um Estado e os Homem não são um condado, podemos manter as coisas como estão. Precisamente, um dos sonhos do velho Doutor Homem, meu pai, era o de ter viajado até às ilhas Hébridas, não por causa da música de Mendelssohn, um alemão meridional que ficou encantado com o cenário – mas por causa de Samuel Johnson, o sábio e literato, guardião dos clássicos, que viajou longamente nas suas colinas. Tirando esta intenção nunca cumprida, havia outras referências escocesas na sua vida, a começar por um boné de ‘tweed’ que usava por recreio quando se aproximava o que na altura se designava por “meia estação”; tinha uma etiqueta onde estava a palavra Edimburgo, que ele gostava de mostrar como garantia da sua pequena extravagância escocesa.

Na verdade, nunca planeou alguma viagem às Ilhas Ocidentais; limitava-se a “ter gostado” de lá ter passeado um dia, sem ter, no entanto, dispendido esforço, tempo, pecúlio e imaginação – que provavelmente acabaria desiludida. A imagem que ele tinha das Hébridas era a de uma espécie de parque montanhoso, fustigado pelas intempéries nocturnas, mantido verde pela chuva permanente e relembrado pelos escritores que lhe dedicaram versos ou relatos de viagem, geralmente pouco amáveis. Isto lhe bastava.

Já quanto à Tia Benedita, por seu lado, ela tinha sido informada pelo clero de Ponte de Lima de que não só a Igreja Anglicana tinha um conflito eterno com Roma, mas que a Escócia era ainda mais anti-papista do que o dr. Afonso Costa (este último argumento era decisivo e, no limite, usado sem cerimónia; estrada que o demagogo da República tivesse um pisado, era proibida para a família).

Dos vivos, no entanto, só a minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família (ultimamente muito morigerada, vale a pena dizer), se manifestou sobre o referendo escocês. Foi por ela que soube que a independência da Escócia significaria o estabelecimento de um paraíso na Europa, de onde seriam varridos não só os políticos actuais mas também o capitalismo, a monarquia e, creio, o uísque falsificado. Esta perspectiva não me era desagradável, tirando o exílio de Sua Majestade. Ainda imaginei a Tia Benedita preparando o casarão de Ponte de Lima para receber Isabel II, expulsa pelos escoceses.

07/12/14

O dia em que o velho Doutor Homem repousou

Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

 

Foi por volta de 1970, em pleno Outono, tépido e chuvoso. O velho Doutor Homem, meu pai, apresentou-se à porta de casa a meio da manhã decidido a “arrumar as coisas” – soubemos que tinha sido esta a expressão usada para justificar a momentânea ausência do escritório onde, durante anos, exerceu advocacia e passou praticamente uma vida inteira. Isto merece uma explicação.

A partir de 1966 interrompera o hábito quotidiano de almoçar em casa, tendo decidido que, doravante, passaria a frequentar um restaurante pelo qual se afeiçoou e onde não o incomodavam com sugestões extraordinárias. Nessa altura não havia chefs; uma refeição compunha-se de sopa, prato principal, sobremesa, vinho do Porto e café (que, relembro os leitores benevolentes, não era “expresso”, mas de cafeteira). Por atenção e gentileza do dono do restaurante, o velho Doutor Homem, meu pai, pôde durante anos beber colheitas clássicas da Real Companhia e, uma vez por outra, aceitar xerez com limão como aperitivo (nos dias de Inverno aconchegava-se com um ponche quente à despedida). De vez em quando mandava cumprimentos à cozinha quando a sua vitela no forno ou o arroz de pato lhe traziam à memória a Tia Henriqueta, a melhor de todas as cozinheiras da família, a cuja casa – em Vila Praia de Âncora – acorríamos uma vez por mês para saborear aqueles cardápios que foram sempre a antecâmara da felicidade. Uma vez por outra levava companhia até ao restaurante – mas muito raramente; a sua hora de almoço era uma espécie de recolhimento para um cavalheiro com cinco filhos ruidosos e que gostava de ler O Primeiro de Janeiro com desprendimento enquanto não chegava (do Clube Inglês) o seu pacote semanal do Telegraph.

Excepto naquela manhã. Soubemos, mais tarde (Dona Ester, minha mãe, acompanhou a cena à distância), que se fechou no escritório, vagueou pelo quarto, recolheu papéis – e que, à saída, levava uma caixa de cartão que mandou destruir. Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

Saiu de casa com ar tranquilo; apesar de ainda ser meio-dia, o táxi deixou-o à porta do restaurante onde almoçava diariamente. Quarenta anos depois recordo esse momento com alguma melancolia. O velho Doutor Homem, meu pai, estava disponível para a eternidade.

07/12/14

O crepúsculo em Moledo durante o Verão

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade.

 

Já contei aos leitores benevolentes a forma como Dona Ester, minha mãe, encarava o Verão: uma espécie de sanatório. Em primeiro lugar, isto só era possível no litoral do Alto Minho, a única província que a família entendia ter condições para proporcionar férias verdadeiras às várias gerações dos Homem de todas as idades; em segundo lugar, o tratamento incluía uma certa dose de abnegação e, em simultâneo, de desprendimento. Dona Ester, minha mãe, acreditava que pessoas bronzeadas não só resistiam melhor aos contratempos como, também, transportavam um certo ideal de beleza que contrariava a palidez e a tendência para a neurastenia. Assim, segundo a sua bula médica, o sol e o iodo de Vila Praia de Âncora, Afife ou Moledo eram, convenientemente administrados, uma espécie de vacina contra as gripes, o reumatismo, as doenças respiratórias, os problemas de pele – tanto como uma prevenção dos estados depressivos e da tendência para a poesia lúgubre (que ela achava um dos grandes defeitos portugueses). Esta medicina foi aplicada pelo tempo fora, sendo Moledo (com a sua conjugação de pinhal, neblinas matinais, brisas marítimas, banhos de água fria e sol filtrado pela imagem da Ínsua e de Santa Tecla) o hospital e a fonte de todos os milagres. Não era um tempo melhor ou pior do que o de hoje – era a época de Dona Ester. Quanto ao velho Doutor Homem, meu pai, ele concordava com a terapêutica desde que, à mesa do jantar, nos apresentássemos em ordem e com gramática. Hoje, passados setenta anos, recordo esses Verões de outrora como uma derradeira ventania da memória.

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade; creio que se interroga sobre se a vida teria, ou não, sido melhor de outra maneira, e se os seus filhos teriam atravessado de outra forma, a funesta idade da adolescência.

Ontem, ao fim da tarde, arrastou-me para um passeio até à esplanada do P’ra Lá Caminha (o café diante da praia), onde é sempre difícil conseguir uma mesa para suportar a temperatura do crepúsculo. Aquela felicidade surpreende-me sempre. “Qual felicidade?”, perguntou ela, desconfiada. “Nenhuma. Só isto.” Dona Ester teria compreendido a imagem. Um Verão em Moledo nunca se explica; é um crepúsculo que nunca se espera.

 

07/12/14

A depressão de Dona Elaine e a cozinha de Moledo

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas 

 

Desde há meses que Dona Elaine não perde um programa de cozinha na televisão. Se não o vê em directo, escolhe as horas mansas da tarde – enquanto os nossos visitantes se estendem no areal da praia, reconfortados pelo calor que, finalmente, chegou a Moledo – para verificar o que se cozinha na Austrália, nos Estados Unidos e, por vezes, em programas de viagem que atravessam a Tailândia, a Mongólia ou regiões ainda mais exóticas, como o Alto Douro ou o Alentejo. Ontem mesmo deparei com um espectáculo preocupante: a governanta deste eremitério sentada à mesa da cozinha, tendo à sua frente um caderninho comprado na mercearia, tomando notas acerca de um filete de garoupa braseado com raspa de gengibre e um caril de legumes, colorido como um Caravaggio alegre.

Dona Elaine é uma cozinheira de mérito, educada nos fogões da sua família (emigrantes no Brasil), aconchegados pela sabedoria minhota – de Cerveira. Isso significa que oscila bastante entre uma certa simplicidade e um desejo barroco que nunca é atingido: pratos suculentos e letais andam de braço dado com peixes frescos e saladas da horta. Por alturas do Verão, Dona Elaine rejuvenesce e recolhe-se à despensa, animada pela chegada dos meus sobrinhos e outros acompanhantes; limitada pela minha dieta, esta pequena multidão estival, jovem e esfomeada, é uma oportunidade para relembrar a sua arte. Surgem, então, tabuleiros de arroz de pato, travessas de escabeche, doces que fazem tremer os tempos modernos, massas folhadas que desafiam a austeridade, peixes que passam pela tortura do forno e uma grande variedade de recordações dos velhos livros de gastronomia do Alto Minho – para os quais, não raras vezes, é convocado o Dr. Barreto Nunes, que vem de Braga com mais um opúsculo raríssimo que apreciamos à hora da sesta.

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. Foi necessária uma “terapia de choque”, garantindo que detestávamos as técnicas de “empratamento” contemporâneas (onde a comida é amontoada como uma torre de Babel) e que apreciávamos como ninguém o seu frango no forno, recheado, luminoso e suculento. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas, os pratos que o Tio Alberto preparou para D. Ramon Otero Pedrayo, o insigne galego. Toda a gente compreendeu que são necessários sacrifícios para manter impoluta a mesa de Moledo.

 

07/12/14

Uma família irrequieta diante da chegada do Verão

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

 

Já houve três dias de Verão e o Verão ainda não chegou. A frase foi dita no domingo passado por Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, e foi uma chamada ao bom senso geral em tempo de rebeldia contra os elementos. Ela escutava os lamentos pela “vaga de frio” que nos assolava, entre chuviscos caindo ao largo da Ínsua e uma brisa morigerada que obrigava ao uso de agasalhos. A minha sobrinha Maria Luísa tentou dizer que o aquecimento global causa danos irreparáveis à Natureza, mas foi prontamente abafada por gargalhadas – e juntou-se, vencida, aos protestos pelo atraso na chegada do Verão.

A esta hora, os leitores benevolentes já devem ter notado que o Verão, propriamente dito, só tem chegada marcada para a próxima semana, se cumprir as suas obrigações de calendário.

O velho Doutor Homem, meu pai, prezava muito a “meia estação”, atribuindo-lhe méritos civilizacionais muito exagerados e a chegada do Verão não lhe era especialmente querida. Atribuo isso ao seu dandismo, e a uma boa dose de vaidade de que os Homem sempre dependeram; a “meia estação” era a oportunidade de se vestir como um cavalheiro do campo inglês, de ‘tweed’ e boné, exercitando-se em passeios vagarosos para apreciar, como ele dizia, “o massacre do pólen”.

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

O meu avô, administrador de quintas do Douro, sofria amargamente com o Verão. Tendo de viajar ao longo daquele vale decorado de vinhas e rochas ameaçadoras, era uma vítima do calor inclemente que varria o mapa da região. Nessa altura, Barca d’Alva era o epicentro do inferno, abafado, terrível, sem amenidades, mas que ele tinha de visitar para manter o ritual das conversações crepusculares com Guerra Junqueiro, o poeta da Quinta da Batoca, a quem devotava uma admiração e um respeito que o velho Doutor Homem, meu pai, achava inversamente proporcional à admiração e respeito que se devia devotar à sua poesia.

Regressando do Douro, recebido na estação de São Bento juntamente com cabazes de fruta e garrafas de boas colheitas, o meu avô queria proteger-se do Verão em passeios até Leça, onde procurava um pouco de ar temperado para os seus problemas respiratórios.

Cinquenta, sessenta, setenta anos depois, ainda me sinto um herdeiro de Dona Ester, minha mãe, alugando um toldo à época no diminuído areal de Moledo.

07/12/14

Preparar o Verão e a brevidade da vida

A floração dos hibiscos, como das giestas das serras e das mimosas à beira dos caminhos é um dos retratos do meu Alto Minho particular, enquanto Moledo se prepara para o verão

 

Lamento informar, mas Maio é um dos grandes meses neste eremitério de Moledo: ele alberga as grandes decisões sobre o Verão que se aproxima de mansinho, colorindo o pinhal das traseiras, empurrando com suavidade as brisas dos nossos crepúsculos, limpando a poeira que ameaça os vasos dos hibiscos – durante anos, a família entendeu que eles davam sentido a uma parte da minha vida, frágeis e rosados, tranquilos com a ideia de que perecerão em breve, conformados com a brevidade da vida e a sua imperfeição.

A floração dos hibiscos, como das giestas das serras e das mimosas à beira dos caminhos é um dos retratos do meu Alto Minho particular, enquanto Moledo se prepara para o verão: Dona Elaine ronda a despensa, tomando medidas, anotando — de memória e mentalmente — a proporção entre os víveres a armazenar e os invasores previsíveis.

A segunda prova da proximidade do Verão é dada pela minha sobrinha Maria Luísa; no esplendor da idade, afastada a hipótese de rumar para destinos longínquos ou vagamente cosmopolitas, ela prefere agora seguir a sombra das suas raízes, para retomar o verso de Eliot, limitando-se a anunciar que de Julho a Setembro o seu quarto está reservado, e que provavelmente aqueles dois adolescentes que passam por seus filhos a acompanharão em parte do acampamento.

Falo de acampamento porque era essa a forma que a casa de Moledo tomava nesses Verões de há não muitos anos, quando todos os meus sobrinhos eram adolescentes e se dispunham não apenas a inaugurar a época balnear mas, também, a acompanhar o seu curso até que o último grão de areia pousasse sobre a superfície abandonada dos caminhos junto do mar. A imagem parece romântica, mas é apenas uma força de expressão — eles assentavam arraiais, entontecidos, e permaneciam assim durante todo o Verão (Julho e Agosto, uma semana de Setembro), arrastando visitantes de que sempre ignorei o nome e violando todos os horários praticados dentro de casa.

Dona Elaine — com a ironia do costume — apreciava a situação. Ela entendia que se tratava de um teste à minha capacidade de resistência e ao habitual torpor que o Verão transportava para a sala da biblioteca e para a varanda onde me dedicava à prática dos cuidados botânicos. Mas a antiga emigrante do Rio ficava feliz com essa invasão juvenil; todos eles tinham bom estômago, resistência à água fria da Ínsua e um descaramento que, julgava ela, incomodava o mais reaccionário dos minhotos de Moledo. Enganava-se; eu sentia-me como um Zé do Telhado na companhia de salteadores de Barcelos.

07/12/14

Mais de 40 anos fora de moda

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade.  

 

O velho Doutor Homem, meu pai, lamentava-se periodicamente de ser conservador num país que alimentava uma genuína paixão pelo progresso em todas as frentes. O caso explica-se facilmente através da literatura: os leitores já não se recordam, mas no Mau Tempo no Canal, o romance do Prof. Nemésio passado no apogeu da República, há um barão da Urzelina muito temente a Deus, que sempre se considerou fiel ao partido de Hintze Ribeiro (o da monarquia, relembro) – porém, como era igualmente fiel ao progresso, tornou-se cabo eleitoral do Partido Republicano, o mesmo de Afonso Costa.

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade. Isto causar-lhe-ia muitos problemas na época, quando se consideravam a democracia e, por extensão, o socialismo, como uma espécie de pórtico para o paraíso terreno. A Igreja, à excepção da do Alto Minho e talvez da de Miranda do Douro, creio eu, também prometia o socialismo, e o mesmo faziam todos os partidos políticos, incluindo – estranhamente – o Partido Socialista. A minha sobrinha Maria Luísa (a eleitora esquerdista da família e nascida pouco tempo antes da revolução) não acompanhou os debates ideológicos dessas duas décadas preciosas mas, à distância, também sofreu da nostalgia da geração anterior, por pura solidariedade.

A família, que desde o século XIX se habituara a conviver na adversidade com os vários regimes mandantes, preparou-se convenientemente para a democracia. Em primeiro lugar, em vez de flutuar ao sabor das conspirações (foram bastantes), limitou-se a viver como se não pertencesse ao futuro, não obrigando ninguém a aceitar as suas obsessões e teimosias: nestes últimos cento e cinquenta anos conservou a sua biblioteca, reconheceu erros e não esperou a salvação da sua alma. Mantendo-se à distância, cumpriu obrigações e, à excepção de uma ou outra ocasião, foi razoavelmente cínica, não acreditando no apocalipse nem na chegada do reino dos céus. Esta espécie de misantropia não produziu vítimas nem nos isolou do mundo; pelo contrário, apesar da existência da Tia Benedita, a matriarca miguelista de Ponte de Lima, manteve-nos razoavelmente disponíveis para o divórcio, a televisão a cores ou o convívio com políticos que raramente soletram frases com sujeito, predicado e complemento directo. Éramos fora de moda, enfim. E continuamos, em liberdade. Não há maior elogio ao 25 de Abril.

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